Princípios
Coleção Princípios - Lula reeleito

A correlação de forças que sai das urnas

José Carlos Ruy* Publicado em 01.10.2006

Baixadas as bandeiras comemorativas da vitória, o povo precisará manter altas as bandeiras da luta

 O sonho da direita de “acabar com essa raça”, expresso pelo presidente nacional do PFL, o oligarca catarinense Jorge Bornhausen, não se realizou na eleição deste ano. Não aconteceu aquilo que os analistas conservadores previam: o fim do PT e da esquerda, com a radical diminuição de sua expressão eleitoral. E a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva confirma mudanças que ocorrem na correlação de forças do cenário político brasileiro desde sua eleição, em 2002.
O Brasil começou a mudar, e o cenário político incorporou transformações sociais ocorridas desde as décadas de 1970 e 1980 que desenham a feição da política nacional nas eleições ocorridas após o final da ditadura militar, em 1985.

A população se tornou mais urbana; a escolaridade do povo aumentou; a experiência histórica da luta contra a ditadura militar, pela anistia e pela Constituinte; o Fora Collor; a luta pela reforma agrária e contra a ditadura patronal nas empresas das cidades; a resistência contra as privatizações de Collor e FHC; o desencanto com as promessas tucanas de “modernidade” – tudo isso fez crescer nos brasileiros o gosto pela democracia e pela participação popular nas decisões que dizem respeito aos destinos do país e seu povo.

A situação histórica já não é a mesma que a de meio século atrás. O país evoluiu no sentido da democracia, que se consolida. Hoje, a população é majoritariamente urbana, e dois terços (64%) moram em cidades com mais de 50 mil habitantes. Se considerarmos apenas as cidades com mais de 400 mil moradores, elas concentram 56,4 milhões de pessoas – isto é, um em cada três mora em municípios desse porte (dados de Márcio Pochmann, O Estado de S. Paulo, 5 de novembro de 2006).
São mudanças lentas, freadas pela ação dos setores mais retrógrados da elite, que resistem ao avanço da democracia, à participação popular nas lutas políticas, e repetem o mesmo procedimento anacrônico e golpista das décadas anteriores, como se viu no esforço da direita contra o governo Lula desde meados de 2005.

Por isso, tudo indica que o cientista político Jairo Nicolau, do Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro), tem razão ao afirmar 2006 como um ano que sinaliza o fim de um ciclo partidário (Folha de S. Paulo, 29/9/2006), embora não tenha acertado quanto à força dos partidos no cenário que vai se consolidando. Como ele lembra, a disputa presidencial deste ano foi a quinta desde o fim da ditadura, e a sexta eleição para o Congresso Nacional, superando “os números da outra experiência democrática vivida pelo país (1945-64), quando foram realizadas quatro eleições para presidente e cinco para o Congresso”. Além disso, o eleitorado brasileiro cresceu, sendo o terceiro maior do mundo, com mais de 125 milhões de eleitores, superado apenas pela Índia e pelos EUA.

Mas o prognóstico de Jairo Nicolau precisa ser corrigido depois desta eleição de 1o de outubro e do resultado para a Câmara dos Deputados, principalmente quanto à previsão de que PSDB e PFL sairiam fortalecidos, pois ocorreu o contrário. Mas acertou quanto ao papel do PMDB, que – escreveu – “deve ocupar fatias importantes de poder e se tornar um pólo de atração dos deputados dos pequenos partidos”.

Congresso Nacional

A maioria dos deputados federais da atual legislatura tentou a reeleição: 433 deputados (84% do total), diz o DIAP (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar); 269 conseguiram (52% dos 513 deputados), indicando uma renovação de 48%, quase a metade. São 244 parlamentares novos, embora apenas 46 sejam realmente novos: os demais 198 já exerceram o mandato em outras legislaturas e agora voltam para a Câmara.

A Câmara dos Deputados que vai tomar posse em fevereiro terá um perfil sócio econômico diferente da atual, mostra o DIAP, com predominância de deputados com curso superior, idade entre 30 a 60 anos, profissionais liberais e não-assalariados. Têm curso superior 413 dos eleitos (81% do total); entre os demais, 37 (7% do total) têm superior incompleto; 51 (10%) têm o ciclo médio, e 12 (2%) apenas o ensino fundamental.

Em termos de idade, os maiores de 31 anos são 493 deputados, uma maioria quase absoluta. Por faixas de idade, são: 20 deputados têm entre 21 e 30 anos; 229, entre 31 e 50 anos; 172, entre 51 e 60 anos; e 92, mais de 61 anos.

Mais da metade (265) é profissionais liberais, e a profissão mais freqüente é a de advogados (87), seguidos por 54 médicos, 47 engenheiros, 20 economistas, 15 administradores, dez jornalistas, e 32 de outras profissões liberais.

O segundo maior grupo é o dos empresários: 121 no total, sendo 97 urbanos e 24 rurais. Em seguida vêm os assalariados urbanos, formados por 87 deputados, a maioria professores (32) e servidores públicos (22). O quarto contingente é o dos operários urbanos e rurais: 19 deputados (sete metalúrgicos, sete agricultores, um técnico químico, um técnico em telecomunicações, um gráfico, um ferroviário e um industriário). Há ainda o conjunto formado por outras ocupações (21 deputados) destacando-se entre eles oito religiosos (padres ou sacerdotes evangélicos) e cinco estudantes.

A nova Câmara dos Deputados promete um cenário favorável ao governo. Pelos cálculos iniciais, o presidente Lula poderá ter o apoio de 303 parlamentares, perto da maioria de três quintos necessária para aprovar emendas constitucionais, que é de 308 deputados. Outro indicador favorável aparece na lista dos cem parlamentares mais influentes da próxima legislatura, no Senado e na Câmara; é a famosa lista das “cabeças do Congresso” do DIAP. Nela, 37 parlamentares são governistas (24 do PT, quatro do PCdoB e nove do PSB), ou 52 se forem somados os 15 do PMDB. A oposição tem 30 (18 do PFL e 12 do PSDB); os demais partidos, cuja posição ainda precisa ser definida, dividem os demais nomes da lista: PPS, cinco; PTB tem três; PDT, três; PL, dois; PP, dois; PRTB, um; PSOL, um; e PV, um.

O cientista político Paulo Kramer, ouvido pelo DIAP, sugere a importância deste grupo formado pelos “cabeças” parlamentares pela influência que tem sobre os demais parlamentares. “As verdadeiras lideranças do Congresso, que geralmente não passam de 50 nomes, são fundamentais toda vez que surge um desafio institucional. Foi isso que ocorreu nos governos Getúlio Vargas, Jânio Quadros, João Goulart e Collor. Esse pessoal se junta e sai com uma solução”, disse. Neste sentido, cabe frisar o significado de o governo Lula ter maioria entre a vanguarda do Congresso.

A análise do desempenho dos partidos desfaz as ilusões de que o PT se esboroaria, a esquerda teria um desempenho medíocre e a direita se fortaleceria. Para Antônio Augusto de Queiroz, do DIAP, do ponto de vista partidário a distribuição de cadeiras repete a da eleição de 2002. A comparação entre o desempenho dos partidos naquela eleição e na deste ano indica perda de gás do núcleo da direita formado pela aliança PSDB/PFL. Em 2002, o PSDB elegeu 71 deputados federais; neste ano, caiu para 65; o PFL viveu queda mais drástica, de 84 para 65 eleitos. É certo que o PT também perdeu posições (passando dos 91 eleitos em 2002 para os 83 nesta eleição), mas fez a segunda maior bancada, atrás apenas do PMDB, que elegeu 89, e elegeu mais deputados do que os dois partidos neoliberais.

Por outro lado, o PV saltou de cinco para 13 deputados federais; o PSC, de um para nove; o PPS, de 15 para 22; o PSB, de 22 para 27; finalmente, o PDT pulou de 21 para 24 parlamentares, e o PCdoB, de 12 eleitos em 2002 para 13 este ano.

No cômputo geral, a análise do DIAP conclui que, em relação a 2002, esquerda e centro-esquerda (PT, PSB, PDT, PPS, PCdoB, PV e PSOL) cresceram tendo, no conjunto, 19 vagas a mais, passando de 166 para 185. A centro-direita (PFL, PL, PTB, PSC, PTC, PHS, PAN e PRB) caiu de 137 para 126, da mesma forma como a direita tradicional (PP, Prona, e PTdoB), que passou de 59 para 44 deputados.

É notável, neste quadro, o declínio do PFL. Em 1998, este remanescente da ditadura de 1964 elegeu 105 deputados federais. Em 2002, 84; este ano, caiu para 65. O retrato mais nítido dessa derrocada ocorreu na Bahia, onde o oligarca Antonio Carlos Magalhães, um dos principais dirigentes pefelistas, reinava com mão de ferro. Lá, em 1998, o PFL elegeu o governador, o senador naquele ano, 20 deputados federais e 23 deputados estaduais. Em 2002, embora já tinha sinais de declínio, elegeu o governador, os dois senadores, mas diminuiu as bancadas parlamentares, caindo para 19 deputados federais e 16 estaduais. Na eleição deste ano, o desastre apareceu em toda a linha: o PFL de ACM perdeu o governo estadual e o senador, e o número de deputados minguou, caindo para 12 federais e 14 estaduais.

Mesmo no Senado, onde a direita ainda mantém posições firmes, o governo tem boa situação. O PFL elegeu o maior número de senadores (seis), seguido por PSDB (cinco), PMDB (quatro), PTB (três), PT (dois), e PP, PPS, PRTB, PSB, PCdoB, PL e PDT, que elegeram um cada. Mas o quadro não é definitivo, embora o PFL apareça com 18, a maior bancada (somando-se os eleitos aos senadores que estão na metade do mandato, eleitos em 2002); o PSDB, 16; o PMDB, 15; o PT, 11; o PDT, cinco; o PTB, quatro; o PSB e o PL, três cada; o PCdoB e o PRB, dois cada; PPS e PRTB, um senador cada. Haverá mudanças.

O PFL, por exemplo, já perdeu a senadora Roseana Sarney, do Maranhão, que apoiou a reeleição de Lula e ficou à margem no partido comandado por Bornhausen, ACM e Marco Maciel. Provavelmente, ela migrará para o PMDB, destino provável também de outros três senadores, dando ao partido a maioria na câmara alta. Com isso, o governo poderá ter, pelo menos, maioria simples no Senado, com 43 dos 81 senadores.

Representação das classes sociais

Mas há outros aspectos a serem considerados na avaliação da correlação de forças que se desenha para o futuro. Por exemplo, a bancada dos milionários ganhou mais 49 vagas na Câmara dos Deputados, segundo o DIAP, despertando esperanças conservadoras como as manifestadas pelo cientista político Leôncio Martins Rodrigues, ex-professor da USP e da Unicamp, segundo o qual a posição social, embora não seja a única variável, “é importante na determinação do jogo político”.

Segundo o DIAP, quase um terço dos deputados (165, no total, 49 a mais do que na eleição anterior) declarou possuir patrimônios superiores a um milhão de reais. Além disso, os eleitos são mais ricos do que os de 2002, com patrimônios médios que passaram de 2,2 milhões em 2002 para 2,5 milhões de reais este ano. O campeão é o capixaba Camilo Cola (PMDB-ES), 83, dono da viação Itapemirim, com patrimônio de 259 milhões de reais. Ele é seguido por Odílio Balbinotti (PMDB-PR), com 123 milhões.

O PFL é o partido com o maior número de deputados federais milionários, confirmando sua condição de partido dos ricos: tem 38 felizardos em sua bancada. Depois vem o PMDB, com 37; logo abaixo o PSDB, com 21. Esses três partidos têm, sozinhos, 96 milionários – mais da metade do total. Por estado, São Paulo é o que mais tem milionários, 29. Minas Gerais vem em seguida, com 25. A bancada dos empresários também cresceu, de 104 para 121, quase 20%.

Outra bancada influente de proprietários é a dos ruralistas; eram 111 deputados em 2002 e, este ano, 95. Mesmo assim, conseguiu reeleger líderes importantes do setor, entre eles muitos grandes empresários rurais. Segundo o DIAP, ainda é cedo para avaliar se a bancada ganhou ou perdeu força, pois, mesmo tendo diminuído de tamanho, exibe nomes importantes como Ronaldo Caiado (PFL-GO), Abelardo Lupion (PFL-PR), e Kátia Abreu (PFL-TO). Elegeu também Homero Pereira (PPS-MT), presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), que liderou “tratoraços” em 2005 e 2006.

A bancada dos assalariados, que tem crescido lentamente, este ano diminuiu, passando dos 97 eleitos, em 2002, para 86 deputados este ano. O número de deputados de origem sindicalista também diminuiu, de 74 para 60. É uma inflexão importante que reverte a tendência anterior. Em 1998 foram eleitos 44 parlamentares sindicalistas; em 2002, pulou para 74 deputados, 70% a mais (69 deputados e cinco senadores). Este ano caiu para 55 deputados e cinco senadores (quatro dos eleitos em 2002, mais o reforço significado pela eleição, este ano, do comunista Inácio Arruda). A grande maioria da bancada sindical é formada por petistas. Dos 60 deputados e senadores sindicalistas, 46 são filiados ao PT, seguido por PCdoB (sete), PDT (três), PPS, PMDB e PSOL (um cada).

O desempenho da direita

Geraldo Alckmin foi protagonista de uma façanha inédita na história das eleições: perdeu 2.425.239 de votos entre o primeiro e o segundo turnos. No dia primeiro de outubro, ele foi escolhido por 39,9 milhões de eleitores, recuando para 37,5 milhões no dia 29. Mesmo assim, face à derrocada do PFL, foi seu partido, o PSDB, que se gabaritou como a força dirigente da direita, principalmente porque ficou com o governo dos dois maiores colégios eleitorais do país, os estados de São Paulo e Minas Gerais.

No conjunto, os tucanos elegeram governadores de seis estados (Alagoas, Minas Gerais, Paraíba, Rio Grande do Sul, Roraima e São Paulo). Estes estados representam 54,1 milhões de eleitores, ou 43% do total nacional, e mais da metade (51%) do PIB nacional.

PFL, que teve seu apogeu em 1998, quando elegeu seis governadores, caiu para quatro em 2002 e, este ano, somente o pequeno e pouco influente Distrito Federal. Amargou fracassos históricos em Bahia, Pernambuco, Santa Catarina e Maranhão, embora neste último não teve propriamente pefelistas puro sangue. Os demais partidos que elegeram governadores foram PMDB (sete Estados), PT (cinco), PSB (cinco), PDT (dois), PPS (elegeu dois, mas vai expulsar o governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, por ter apoiado Lula), e o PP (um).

O presidente Lula sai, neste ponto, em situação mais confortável do que em 2002, com apoio principalmente dos estados do Norte e do Nordeste, onde o resultado da eleição indica o ocaso de oligarquias tradicionais, levando o cientista político Carlos Ranulfo Melo, da Universidade Federal de Minas Gerais, a dizer: o Nordeste “vai virar um enclave de esquerda”. Segundo ele, o avanço das esquerdas reflete o esgotamento dos projetos oligárquicos, ultrapassados e em decadência desde o final da ditadura militar de 1964. Era um roteiro previsível. Além do novo fôlego ganho pelas oposições antioligárquicas desde 2003, com o governo Lula, o impacto das políticas sociais do governo federal (sem a intermediação das forças locais para a distribuição dos benefícios à população pobre) eliminou uma tradicional fonte de recursos e de poder das oligarquias estaduais e sertanejas. O encolhimento das oligarquias ameaça o PFL nordestino que, fora dos governos estaduais, “está em apuros. Perdeu sua base e vai entrar em crise”, diz Ranulfo.

A força do povo

Lula conquistou 11,6 milhões de votos a mais do que no primeiro turno e ampliou o número de estados em que venceu, passando de 16 para 20. A partir de 2007 o PT governará Acre, Bahia, Pará, Piauí e Sergipe – que concentram, juntos, 17,1 milhões de eleitores (13,5% do total nacional). É um salto em relação a 2002, quando o PT elegeu governadores no Acre, Mato Grosso do Sul e Piauí (3,2% dos eleitores do país).

É um cenário mais confortável para o presidente Lula, pois há quatro anos tinha apenas três governadores eleitos pelo PT. Em 2007, terá apoio explícito de pelo menos 16 (podendo chegar a 20, alcançando ¾ dos mandatários estaduais), que dirigem estados onde estão 58,2 milhões de eleitores – ou 46,3% do país. Nos 16 estados com governadores lulistas foram eleitos 267 deputados – o equivalente a 52% da Câmara.

Além dos cinco estados governados pelo PT, Lula tem o apoio de cinco governadores do PMDB, três do PSB, um do PPS e um do PDT. O destaque ficou com o PSB, que manteve o Rio Grande do Norte e conquistou Ceará e Pernambuco (onde está o sétimo maior eleitorado estadual do país).
Pelo argumento usado por analistas conservadores para explicar a derrota de seu candidato, o PT e a esquerda venceram nos grotões, um eco grotesco de análises progressistas de vinte anos atrás, mas que indicavam – como Tancredo Neves então percebeu – os grotões atrasados como as últimas trincheiras eleitorais da ditadura.

Contra esse argumento falacioso, um dos maiores conhecedores da fronteira agrícola do país, o antropólogo Otávio Velho, do Museu Nacional, foi incisivo: a “grande votação de Lula não permite que a consideremos como oriunda dos grotões: é impossível que haja tanto grotão assim” (Folha de S. Paulo, 31.10.2006). Além disso, lembra com ironia, “não foram os grotões que elegeram Maluf e Enéas; e não foi o suposto centro que derrotou Severino Cavalcanti e ACM”.

O comportamento do eleitorado paulistano é um exemplo desse movimento. Apesar de Lula ter perdido a eleição no estado, o crescimento da esquerda foi notável, e a coalizão A Força do Povo venceu em quase toda a periferia pobre da cidade de São Paulo, áreas onde o voto tradicionalmente era petista, mas, no primeiro turno, passou para Geraldo Alckmin. Na capital paulista, Alckmin cresceu apenas 3% em relação à sua votação no primeiro turno, enquanto Lula cresceu 30%. O candidato tucano teve 3,4 milhões de votos, contra os 2,9 milhões de Lula.

“A estratégia da capital foi crescer da periferia para o centro”, disse o vereador Paulo Fiorilo, presidente do PT na cidade. E os pontos fortes foram bairros já tradicionais na luta social, como Campo Limpo, Capela do Socorro, na zona sul e Itaquera, Guaianazes e Ermelino Matarazzo, na leste. Há um verdadeiro cerco popular a envolver o centro rico da cidade, visível no mapa elaborado por Bernardo Joffily, que mostra uma forte correlação entre renda e votação em um candidato ou outro. Lula venceu em quase todos os bairros e municípios mais pobres da Grande São Paulo, onde somente 10% ou menos dos chefes de família têm renda superior a 20 salários mínimos. Nos outros bairros e municípios mais ricos, onde chefes de família com renda dessa dimensão representam mais de 10% do total, venceu Geraldo Alckmin. Nos enclaves chiques da capital paulista, diz Joffily, a vitória tucana foi esmagadora: no Jardim Paulista ou em Indianópolis, por exemplo, Alckmin teve mais de quatro quintos (80%) dos votos. Mas perdeu na Região Metropolitana, embora por uma diferença pequena (0,4% dos votos).

“Os crentes na superação da luta de classes se enganam”, escreveu Joffily. E ela tem, no momento histórico que o país vive, uma expressão eleitoral como mostra o resultado na capital paulista. A coalizão que reelegeu Lula fortaleceu o “cinturão vermelho” na periferia da cidade, reconhece o próprio coordenador da campanha tucana na cidade, o vereador Geraldo Natalini, do PSDB. “Houve uma ampliação fundamental na periferia, que se deve a uma onda geral pró-Lula”, disse ele.

É uma situação semelhante à da eleição de 1982, a última realizada sob a ditadura militar, onde pela primeira vez desde 1965 os governadores foram eleitos pelo voto direto. Naquele ano a oposição democrática formada por PMDB, PT, PDT e PTB teve 82% dos votos para a Câmara dos Deputados na periferia pobre de São Paulo, indicando um voto mais forte entre a população mais pobre. Candidatos como Aurélio Peres (do PCdoB, que concorreu pela legenda do PMDB), José Genoino ou Irma Passoni (ambos do PT) tiveram votações que saltaram, em número, de uma média de 5 mil votos nos bairros de renda mais alta para 16 mil na periferia de São Paulo.

A eleição deste ano mostrou uma lógica de classe no voto – cada vez mais explícita no debate que opôs a busca do crescimento da economia, do emprego e da melhoria de renda, ao programa neoliberal privatista de Alckmin. Como num plebiscito, o eleitorado julgou – e condenou – as privatizações e o “choque de gestão” capitalista de PSDB/PFL, levando à reeleição de Lula, ao colapso das oligarquias e ao fortalecimento da ala mudancista no Congresso Nacional. Ela indica estar em curso, no país, uma mudança profunda na correlação de forças, favorecendo aqueles que querem o desenvolvimento e os demais que defendem a subordinação do país e de sua economia aos interesses do imperialismo.

O segundo mandato do presidente Lula começará, tudo indica, em situação melhor do que em 2002 quando, ante a grave situação do país depois de oito anos de mandato tucano, o governo precisou tirar a economia do atoleiro, colocar a casa em ordem, recuperar as finanças e criar as condições para a retomada do desenvolvimento. Além disso, em 2002 a eleição de Lula não foi acompanhada por um significativo número de parlamentares e de governadores comprometidos com o programa das mudanças.

Este ano é diferente. Lula e os partidos da frente A Força do Povo assumiram compromissos mais avançados do que em 2002, disposição alicerçada por mais de 58 milhões de votos (a terceira maior votação da história da humanidade!), de todas as regiões e classes sociais; o novo governo poderá ter a seu lado quase ¾ dos governadores eleitos, além de uma maioria favorável no Congresso Nacional; as oligarquias regionais – como ACM, Tasso Jereissati e Bornhausen – estão em dificuldades, e, pelo resultado da eleição, os tradicionais instrumentos de manipulação da direita, como a imprensa das grandes empresas, falharam na tentativa golpista de “desconstruir” a imagem de Lula e da esquerda, prenunciando as dificuldades que poderão ter daqui para a frente.

O período aberto pela reeleição de Lula consolida a virada de página na história iniciada na eleição de 2002. O povo brasileiro quer ir adiante, aprofundar as mudanças, consolidar a democracia, afirmar a soberania nacional e alcançar o desenvolvimento e o bem-estar. Conforme a história republicana, esta não é uma tarefa fácil; ela é marcada, desde o início, em 1889, pelo choque entre os que querem o desenvolvimento contra aqueles que defendem a subordinação do país aos interesses do imperialismo. Este conflito foi a mola propulsora das maiores crise vividas na história da República, quando a direita, as forças conservadoras e os aliados do imperialismo moveram todas suas energias para conter a maré popular, democrática, patriótica e desenvolvimentista.

A direita brasileira demonstrou disposição semelhante já no dia seguinte à vitória de Lula, multiplicando sua hostilidade raivosa em editoriais dos grandes jornais e revistas e em declarações de luminares conservadores do PFL e do PSDB. Eles perderam a presidência da República e as urnas indicam uma tendência à diminuição de sua força política. Mas a direita não está derrotada, e mantém os fortes instrumentos de poder representados pelo domínio do dinheiro e da grande imprensa, impressa e televisiva. Além de estar à frente do governo de estados importantes, como São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

A direita não se afastará da luta pelo poder, e os próximos meses poderão se tornar cenário do acirramento de novas tentativas contra Lula e o governo das forças progressistas, avançadas e patrióticas. Esta poderá ser uma época em que, baixadas as bandeiras comemorativas da vitória, o povo precisará manter altas as bandeiras vermelhas da reivindicação.

José Carlos Ruy é jornalista.

Referências

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Joffily, Bernardo. Luta de classes nas urnas: o exemplo de São Paulo. Portal Vermelho, 1 de novembro de 2006
Levantamento parcial revela diminuição da bancada sindicalista. DIAP, 3 de outubro de 2006, http://www.diap.org.br/eleicoes/8916
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Para analista, deputados ricos são de direita. Entrevista com Leôncio Martins Rodrigues (Folha de S. Paulo, 22 de outubro de 2006).
Pereira, Raimundo; Caropreso, Álvaro; Ruy, José Carlos. Eleições no Brasil pós-64. São Paulo, Global Editora, 1984.
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Sardinha, Edson. O mapa do poder no novo Congresso. DIAP, 4 de outubro de 2006, http://www.diap.org.br/eleicoes/8921
Thenório, Iberê. Bancada ruralista diminui, mas reelege seus líderes. Agência Carta Maior, 16 de outubro de 2006.

EDIÇÃO 87, OUT/NOV, 2006, PÁGINAS 24, 25, 26, 27, 28, 29, 30