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Santos Dumont, pioneiro da conquista do espaço pelo homem

João Augusto de Lima Rocha* Publicado em 01.10.2006

Suas notáveis realizações configuram uma dimensão bem maior do que aquela com a qual se costuma caracterizar o vôo do 14 Bis. Com ela, são retiradas as restrições à movimentação humana

A 23 de outubro de 2006 comemora-se o centenário do vôo pioneiro do 14 Bis, realizado em Paris por Alberto Santos Dumont, considerado um marco na aeronáutica por ter inaugurado a era da aviação baseada em veículos controlados mais pesados que o ar. Até então os vôos eram realizados em balões (cativos ou livres) ou em planadores. No caso dos primeiros, ditos mais leves que o ar, Santos Dumont contribuiu decisivamente para garantir a dirigibilidade ao neles colocar motor a explosão, hélice e leme. Já os planadores, embora mais pesados que o ar, ficavam ao sabor dos ventos, sem o controle humano.

Para comemorar o notável feito, realizado em 23 de outubro de 1906, organizam-se em todo o Brasil eventos comemorativos, tendo sido instituída, inclusive, uma Comissão Especial pelo governo brasileiro para incentivar as comemorações durante este ano, considerado oficialmente como o Ano do Centenário do Vôo do 14 Bis. Aqui se pretende registrar que – independentemente dos recordes conseguidos pelo grande inventor pátrio na corrida aeronáutica – suas notáveis realizações nesse campo configuram uma dimensão bem maior do que aquela com a qual se costuma caracterizar o vôo do 14 Bis, na medida em que com ela são retiradas as restrições à movimentação humana, que consegue sair das duas dimensões, na superfície do planeta, para os ilimitados horizontes do espaço tridimensional, abrindo caminho para a exploração ilimitada do espaço sideral pela espécie humana.

As notáveis realizações do jovem Alberto Santos Dumont – que aos dezenove anos de idade muda-se para a França, apoiado na grande dotação financeira que lhe dera o pai – devem-se ao ambiente propício, para o qual ele próprio contribuiu, incentivando naquele país a constituição de uma comunidade de interessados, dispostos à cooperação mútua em questões de aeronáutica.

Naturalmente, a eles antecederam importantes pioneiros que, com grandes sacrifícios, muitas vezes até da própria vida, perseguiram o sonho humano de voar. Dentre eles, dois brasileiros: o Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão e Augusto Severo. Santos Dumont, no entanto, além dos recursos herdados da família, possuía um talento invulgar para a Mecânica, além de disciplina e coragem singulares que o levavam a estudar, testar, aperfeiçoar e inovar os desenvolvimentos científicos e tecnológicos disponíveis à sua época, no objetivo de voar autonomamente tanto nos balões, inicialmente, quanto no mais pesado que o ar – com este conseguiu, pioneiramente, por meios próprios, elevar-se do solo, controlar o veículo em seu movimento aéreo, estabilizando-o em vôo nivelado e, por fim, voltar ao solo.

Alberto Santos Dumont alcança a glória nos ares de Paris

Sexto dos oito filhos do Engenheiro Henrique Dumont e D. Francisca Santos Dumont, Alberto nasce no sítio Cabangu, em Minas Gerais, a 20 de julho de 1873, na mesma data em que o pai completara 41 anos. Este – construtor de estradas de ferro –, que foi pioneiro da navegação do Rio das Velhas, mais tarde se deslocaria ao ramo da cafeicultura, passando a morar em São Paulo, onde obteve muito destaque, chegando a ser considerado o maior produtor mundial do produto, naquela época, o que lhe valeu o cognome de Rei do Café.

O menino Alberto, leitor embevecido de Julio Verne, desde cedo revela pendor particular para a Mecânica, chegando até mesmo a dirigir a locomotiva, além de organizar a manutenção dos equipamentos da estrada de ferro particular existente numa das fazendas do pai, em Ribeirão Preto.
Santos Dumont vai a Paris, pela primeira vez, em 1891, então com dezessete anos de idade, em rápida viagem, acompanhando o tratamento do pai que ficara hemiplégico após sofrer um acidente de charrete. Nesta ocasião ele vê na Feira Internacional da Indústria, que lá estava sendo realizada, um motor a petróleo, muito compacto e leve em comparação com toda espécie de motor que conhecia, sendo sua reação por ele mesmo assim descrita:

Parei diante dele como pregado pelo destino. Estava completamente fascinado. Meu pai, distraído, continuou a andar até que, depois de alguns passos, dando pela minha falta, voltou, perguntando-me o que havia. Contei-lhe minha admiração de ver funcionar aquele motor e ele me respondeu: ‘por hoje basta’. (POLLILO, 1950).

Nessa viagem aproveita para comprar, na fábrica, um automóvel Peugeot de três e meio cavalos de força e faz sua primeira tentativa de ascender em um balão – frustrada diante da avareza de um aeronauta identificado por ele no anuário da cidade e que lhe cobrara um preço proibitivo pela ascensão. Em elegante figurino, trafega pelas ruas de Paris com seu automóvel – uma rara curiosidade à época –, à velocidade de 20 km/h e torna-se um hábil técnico de automóveis, tratando-o e consertando-o ele próprio.

Não tendo sucesso no tratamento médico que em vão buscara, Henrique Dumont, antevendo o fim próximo, teria dado ao filho Alberto o seguinte conselho:
Tenho ainda alguns anos de vida; quero ver você como se conduz; vai para Paris, o lugar mais perigoso para um rapaz. Vamos ver se você se faz homem; prefiro que não se faça doutor; em Paris, com o auxílio de nossos primos, você procurará um especialista em Física, Química, Mecânica, Eletricidade etc; estude essas matérias e não se esqueça de que o futuro está na Mecânica. Você não precisa pensar em ganhar a vida; eu lhe deixarei o necessário para viver... (POLILLO, 1950).

Pouco depois da morte do pai, ocorrida no Brasil em 1892, Alberto – que seguiu à risca, por toda a vida, a determinação paterna – fixa residência definitiva em Paris, a partir daquele ano. Lá passa a trabalhar febrilmente no projeto e na construção de balões e realiza um grande número de ascensões, inicialmente interessado na questão da dirigibilidade do mais leve que o ar.

Percebe-se que Santos Dumont, em obedecimento ao pai, embora não tivesse freqüentado a universidade, possuía uma estreita convivência com a prática da engenharia mecânica desde criança, ao envolver-se com as locomotivas da estrada de ferro particular do pai em sua enorme fazenda de café, em Ribeirão Preto.

Aplicou conhecimentos científicos e empíricos de sua época e utilizou habilidades específicas, inventividade e capacidade de inovação na criação de dispositivos que iriam permitir a solução de um problema de diversas gerações anteriores – simbolizado no mito de Ícaro: elevar o homem à condição de pássaro, fazendo-o voar por meios próprios. Afora as habilidades mecânicas e a inventividade, vale ressaltar a capacidade gerencial do jovem aeronauta em direcionar racionalmente seus próprios recursos financeiros, coordenando um complexo quadro de relações, ao dirigir o trabalho de artesãos mecânicos de primeira linha, numa pátria que não era a sua, ciente, por tudo isso, de que não possuía o direito de errar além de certos e estreitos limites. Ocorre, porém, que ele se torna ídolo dos artesãos mecânicos de Paris, até mesmo porque costuma distribuir entre eles o dinheiro dos diversos prêmios que havia abiscoitado em sua vitoriosa carreira. E não somente isso: torna-se, pelo menos por cerca de cinco anos de sua vida, a personalidade mais conhecida da capital cultural do mundo, passando a ser imitado, tanto nos trajes quanto no corte do cabelo, em capital mundial da moda!

Um ousado pioneiro que aprende com a experiência do passado

No entanto, como observam Mattos e Giarola (2003), antes que a extraordinária realização de Santos Dumont se tornasse meramente possível, foi necessária a contribuição de muitos de seus predecessores em aeronáutica, um ramo da indústria no qual, mais que todos os outros, a fonte de aprendizado está na falha ou no sucesso de antecessores.

Dentre tais antecessores – muitos deles mártires da ciência e da técnica – destacam-se: Bartolomeu Lourenço de Gusmão (1685-1729); Sir George Cayley (1773-1857); Samuel Henson (1812-1888); Otto Lilienthal (1848-1896); Clément Ader (1841-1926); e Hiram Maxim (1840-1916). E também alguns de seus contemporâneos, podendo-se citar os próprios irmãos Wright, os irmãos Voisin, Louis Blériot (1872-1936), Henri Farman (1874-1958) e o mártir brasileiro Augusto Severo de Albuquerque Maranhão (1864-1902).

A vida criativa de Santos Dumont, enquanto pioneiro das alturas, particularmente na concepção e construção de artefatos de vôo, começa com o pequeno balão esférico Brésil (do qual muitos diziam ser impossível que pudesse levantar vôo), em 1898, passando pela introdução do motor a explosão e de aparatos que conferiam a eles a dirigibilidade. Em seguida, já preocupado com a introdução dessas invenções que lhe deram bastante notoriedade no âmbito dos artefatos mais leves que o ar, passa a se preocupar em empregá-las no mais pesado que o ar. Assim, analisando a experiência pioneira de Lilienthal com os planadores, culmina com o trágico acidente que lhe tira a vida, em razão do embicamento da aeronave. Santos Dumont concebe e inova, mais uma vez, com o canard (solução para o controle da estabilidade longitudinal de aviões utilizada no 14 Bis), e depois com o aileron (solução para o controle da estabilidade lateral de aviões que também atuava como leme para controle direcional). Este último foi utilizado na última versão do mesmo avião, a que foi responsável pela confirmação consagradora de seu feito pioneiro de 23 de outubro, em 12 de novembro de 1906, no mesmo Campo de Bagatelle, em Paris.

Também concebe e constrói, com seu amigo Cartier, o relógio de pulso, uma invenção extremamente útil à navegação aérea, em sua época. Some-se a tudo isso, a última de suas contribuições para aviação: o Démoiselle, espécie de precursor do atual ultraleve, um avião de comprovada segurança, com suas belas e otimizadas formas, numa estrutura de ferro e bambu, com asas extremamente leves e eficientes. Pode-se dizer que a industrialização, na aviação para uso civil generalizado, começa com o Démoiselle, por permitir a produção em série, com base nos desenhos que Santos Dumont entregava a qualquer pessoa que lhe solicitasse – pois professava a nobre opção de não patentear quaisquer de seus inventos.

Pelo visto, há algo mais que a dimensão tecnológica nos feitos da aeronáutica devidos a Santos Dumont. A verificar pelo que diz em seu livro O que vi e o que nós veremos, editado em 1918, ele – que começa bastante jovem sua tão brilhante quanto curta e intensa carreira – sempre foi movido pela pretensão de realizar as fantasias difundidas por Julio Verne cuja literatura de ficção científica povoou por muito tempo, como aqui já foi dito, seu mundo juvenil:

Diante do motor a petróleo, tinha sentido a possibilidade de tornar reais as fantasias de Júlio Verne.
Ao motor a petróleo devi, mais tarde, todo inteiro, o meu êxito. Tive a felicidade de ser o primeiro a empregá-lo nos ares. Os meus antecessores nunca o usaram. Giffard adotou o motor a vapor; Tissandier levou consigo um motor elétrico. A experiência demonstrou, mais tarde, que tinham seguido o caminho errado.

Santos Dumont chegou a sua idade adulta na Paris da virada do século XIX e XX, uma época de grandeza e progresso que somente seria interrompida ao troar dos canhões da 1ª Guerra Mundial. Na França e na Inglaterra viam-se sólidas, porém graciosas, pontes estenderem o sistema ferroviário por sobre os rios e conferirem notoriedade e prestígio à profissão de engenheiro. Era o final do período que passou para a história como Belle Époque: bicicletas produzidas em série com silenciosos pneus de borracha percorriam as ruas, e os primeiros automóveis dissipavam o odor da gasolina. Construída há apenas dois anos após sua chegada em Paris, Alberto conheceu a torre Eiffel, então a mais alta construção do homem, iluminada com a luz de gás convencional, porém com elevadores movidos por uma nova e extraordinária forma de energia: a eletricidade. Ao descrever o encantamento de Santos Dumont ao chegar em Paris, com a cidade e esse seu famoso símbolo, diz Hoffman (2004): “Alberto passou metade do dia andando nos elevadores e, depois, sentou-se num banco ao redor do rio Sena e admirou a alta silhueta da torre recortando-se no céu”.

Os avanços da ciência e as novas tecnologias de então apontam para a superação de todos os limites ao desenvolvimento humano. Progressos na medicina e na higiene sanitária fazem cair a mortalidade infantil e aumentam a expectativa de vida média das pessoas. Surgem as primeiras normas de segurança no trabalho e inicia-se o movimento de libertação feminina, a população em larga escala passa a ter acesso à educação e aos bens de consumo. Enormes e velozes transatlânticos cruzam os oceanos transportando centenas de pessoas e milhares de toneladas de produtos. Em praticamente todas as áreas ocorrem avanços extraordinários. Albert Einstein apresenta ao mundo, em 1905, os quatro trabalhos que iriam revolucionar o século XX, fazendo dele o mais revolucionário tempo vivido pela humanidade. Eis o ambiente em que vive Santos Dumont, apresentando uma das mais importantes contribuições para a efervescência do século que então se inicia.

Santos Dumont, com o vôo de seu 14 Bis em 23 de outubro de 1906, coloca a humanidade num novo e definitivo patamar, tornando possível o movimento de veículos para além da superfície terrestre, por meios próprios, indo no sentido de uma cada vez maior profundidade, dentro do espaço tridimensional infinito. As contribuições desse inventor e navegador dos ares, no entanto, foram construídas dentro de um ambiente técnico e científico propício – que ele próprio ajudou a criar, imerso no efervescente ambiente cultural de Paris, à base de atitudes típicas de engenheiro, de aprender com os erros dos antecessores e com os seus próprios em busca da utilização dos princípios e das conquistas incessantes da Ciência, aliada à experiência dos artesãos. Assim pôde ser uma espécie de elemento de convergência, através do qual foram sendo gestados os meios para a construção de aparatos que, pouco a pouco, conformam o mundo às novas configurações que, revolucionariamente, vamos, a cada dia que passa, transformando.

João Augusto de Lima Rocha é professor da Escola Politecnica da Universidade Federal da Bahia

Referências

DUMONT, A. S. O que eu vi, o que nós veremos. Rio de Janeiro: Hedra, 2004, 100p.
HOFFMAN, P. Asas da Loucura: a extraordinária vida de Santos Dumont. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004, 360p.
MATTOS, B. S.; GIAROLA, P. C. “Early Years of Aviation Santos Dumont and Other Aviation Pioneers”, Revista da ABCM, v. 09, n. 2, abr-set. 2003.
POLLILO, R. Santos Dumont Gênio. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1950, 319p.

EDIÇÃO 87, OUT/NOV, 2006, PÁGINAS 49, 50, 51, 52, 53