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Um senador romano

Anatole France Publicado em 16.09.2016

O episódio do assassinato do querido imperador Júlio César pelos senadores, em defesa da República, é descrito nesta sátira poética como um pesadelo do poder, com suas ambiguidades inerentes e consequências inimagináveis. O comunista Anatole France não reservava sua disposição política apenas aos escritos. É famoso seu apoio à Émile Zola no caso Dreyfus. No dia seguinte à publicação do "J'accuse", assinou a petição que pedia a revisão do processo, devolveu sua Legião de Honra quando foi retirada a de Zola e participou na fundação da Liga dos Direitos do Homem. Após ser laureado com o Nobel de literatura, em 1921, teve toda sua obra "indexada" pela Igreja Católica, pela crítica aberta à instituição religiosa.

Cena em que Júlio César surpreende-se com seu amigo Brutus entre os assassinos. Foto: Frame da série televisual Roma

Em sua toga branca e no solo encarnado,

César vencido jaz com toda a majestade.

O bronze de Pompeu olha na eternidade,

com seu verde sorriso, o corpo ensanguentado.

 

A alma que abandonou o homem apunhalado

por Brutus, que interpreta o ideal da liberdade,

ronda onde a morte dá, com gélida crueldade,

uma estranha beleza ao crime consumado.

 

Com seu enorme ventre a roncar fortemente,

no mármore do banco a tudo indiferente,

dorme profundamente um velho senador.

 

Pelo grande silêncio ele foi despertado.

E soa sua voz no recinto gelado:

— Voto pela coroa a César ditador!

 

Poemas da Liberdade
Uma antologia poética de Dante a Brecht
Edmundo Moniz
Civilização Brasileira
1967