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A BOIADA

Humberto de Campos Publicado em 09.06.2016

Neste soneto, o poeta busca nas palavras os traços da natureza em sua dureza e beleza, impiedosa, mas domável quando enfrentada. No início do século um poema impressionista e comovente no movimento com que descreve animais em sua relação com o homem na luta para superar as dimensões implacáveis do meio ambiente. "Tido e elogiado como um prosador admirável, a fase poética de Humberto de Campos, no começo de sua carreira (1904-1915), quando publicou os dois volumes de Poeira, enquadra-se numa fase de transição, a que alguns chamam de neoparnasiana, mas sem uma característica definida". Assis Brasil

A caminho dos portos e dos curros,

fazendo curva ou retidões de réguas,

desce a boiada, aos corcovões e esturros,

vencendo estradas de noventa léguas.

 

Vem das pastagens de Inhamuns*. E, entre urros,

a poeira, e as filas de alazões e de éguas,

erguem-se dorsos, babam-se chamurros,

chocam-se chifres, num fragor sem tréguas.

 

Ao pôr-do-sol, é o descansar. Se a lua,

porém, se alteia no sertão remoto,

a romagem, de novo, continua.

 

E ao luar, chouteando no pastal que medra,

recorda um monte que, num terremoto,

chocasse, ondeando, seus cardais de pedra!

                                                                                                  Miritiba / MA, 1886

                                                                                                  Rio de Janeiro/ RJ, 1934

 


*Ceará.

 

Livro: Livro dos Poemas

Uma Antologia de Poetas Brasileiros e Portugueses

Organização: Sergio Faraco

Editora: L&PM Editores, 2009