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As amendoeiras feridas morreram

Tahar Ben Jelloun Publicado em 07.12.2006

Para Leila Shahid Rafah, aldeia ao nordeste do Sinai, acaba de ser destruída pelos israelitas, após a expulsão de seus habitantes árabes. Um desses homens escreveu ao seu filho.

      Meu filho,

      O dia parou nas minhas rugas desde o momento em que a máquina sangrenta e cinza deles passou sobre nossa casa. É impressionante esse veículo imenso que abre sua garganta para tragar as poucas coisas que nos restavam: um pedaço de terra, um teto e três amendoeiras. É uma máquina que faz barulho, brilha ao sol e explode em gargalhadas quando triunfa sobre as pequenas flores selvagens e frágeis que tentam reerguer. Vi seus dentes amarelados pelo sangue da terra se quebrarem sobre um monte de areia. Uma brisa levou as raízes da árvore. O céu se abaixou e as recolheu; acho até que elas moram numa pequena nuvem obstinada que não nos deixa mais desde que ficamos sem teto, sem pátria. Teu irmãozinho correu para tirar da poeira pesada os teus livros de escola. Ficamos com medo. A máquina quase o engoliu.

      Feridos em nossa terra, humilhados em nossas árvores, lá estávamos nós três, paralisados e habitados por uma morte repentina. Uma parte de nós mesmos creio que a maior dela foi assassinada; eles nos arrancaram tudo naturalmente, na madrugada. Ficamos tranqüilos; eles abriram nossas chagas e bebemos nossa morte. Ela tem o gosta da seiva; tia diz que ela tem perfume de jasmim. O céu se abriu ao chamado do pássaro órfão, e notamos um corpo de luz coberto de sangue novo. O sol tropeçou naquele dia, pois a injustiça fria cavou seu veio em nossa terra, nosso corpo.

      Nossa memória fendida por estrelas não possuía mais cidadela; ela engravidou de novas feridas. Em 1948, tu não havias ainda nascido. A guerra atravessou nosso campo. A oliveira estava calcinada. Nosso destino murchou com a miséria, mas ele tinha raiva da esperança. Alguns partiram levando uma tenda como bagagem, outros morreram.

      Hoje, meu filho, nós não sabemos onde estás, onde quer que estejas, saiba que não estamos tristes. Disseram-nos que nossas casas são inúteis e que nossas amendoeiras são ridículas. Disseram-me que sobre essa terra se elevará uma cidade, uma cidade moderna. Ela terá belas avenidas, ônibus e carros. Ela irá até o Mediterrâneo e se chamará Yamit. Suas máquinas aperfeiçoadas avançam, avançam. Nossos vizinhos receberam sinal verde. Eles podem ficar em casa alguns dias ainda. Sabe, a cidadezinha de Abu-Chanar, ela também será destruída. A máquina sangrenta e cinza avança e avança. Disseram-nos que é preciso abrir espaço para os homens vindos de longe, de muito longe, judeus vindos da Rússia, meu filho.

      Nossa bagagem é leve: um saco de farinha e um pouco de azeitonas. O raio pode cair: Ele resolverá as areias misturadas com as pedras despedaçadas e os arbustos derrubados. Ele cairá no vazio, estrangulado pelas serpentes do ódio. Imagine, meu filho, eles pedem às crianças dessa terra virem trabalhar por conta dos “novos proprietários”! Foi a única vez que chorei. Eu sei, tu não gostas de lágrimas; desculpa-me se as minhas caíram. Mas a vergonha as reuniu em meu corpo como pedras, como os dias, como as preces.

      Nossa terra surrada pelo aço que esmaga as lagartixas eu a vejo sua fronte como uma estrela, um sonho urgente que nos reúne. Tudo muda de nome. A mão metálica apaga a escrita sobre nossos corpos. Raízes de árvores o atestam. Nós não precisamos de estrela. Nossa memória é um pouco de areia suspensa à luz. Ela é altiva entre teus dedos. Nós te beijamos, filho, onde quer que estejas.

Que pássaro érbio nascerá da tua ausência
tu a mão do poente misturada ao meu riso
e a lágrima transmutada em diamante
galga a pálpebra do dia
é a tua fronte que eu desenho
no vôo da luz
e teu olhar
se vai
sobre a onda que voltou
uma noite de areia
meu corpo não é mais esse espelho que dança
então me lembro.

tu te lembras
tu criança nascida de uma gazela
o sonho balbuciava em nós
seu canto efêmero
o vento e o outono numa solidão
eu te dizia
deixe teus pés nus sobre a terra molhada
uma rua branca
e uma árvore
serão minha memória
dá os teus olhos ao horizonte que canta
minha mão
suspende a cabeleira do mar
e roça tua nuca
mas tu tremes no espelho do meu corpo
nuvem
minha voz
te leva rumo ao jardim de árvores prateadas

 era uma primavera aberta sobre o céu
ele me deu uma criança
uma criança que chora
uma estrela dividida
e meu desejo se separa do dia
eu o recolho numa folha de papel
e vou esconder a loucura
num rochedo de solidão

Branca a ausência
qual morte longínqua
nesse dia em que o astro do esquecimento 
pousará sobre  a erva molhada de uma memória envelhecida

eu vejo cantada pelas manhãs
meninos nascidos das areias

E o pássaro me diz
ela é silaba a pronunciar suavemente
entre um pensamento e um riso
e se o olhar se ausenta
deixa-te tomar entre os dedos do sol
vai dependurar o sono nas tranças da noite
e recolhe as estrelas que não são mais do céu
segura a mão fértil quando pensares na cidadela deste corpo
frágil

Eclipse
e
silêncio
das pedras atormentadas


Poetas do Mundo – Tahar Ben Jelloun
As cicatrizes do Atlas
Seleção, tradução e introdução de Claudia Falluh Balduino Ferreira
Editora UnB – edição 2003.