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Goethe, o cientista da paixão

Erlon Paschoal Publicado em 01.03.2007

Há 258 anos nascia na Alemanha um dos maiores escritores da história da humanidade: Johann Wolfgang Goethe.

      Nascido no dia 29 de agosto de 1749 em Frankfurt, Goethe passou a maior parte de sua vida em Weimar. De lá só saiu para ir à Itália em 1786, um de seus grandes sonhos de juventude e que influenciou decisivamente o seu processo de formação. Foi lá que ele aprendeu a disciplina estética e a exata medida; critérios que lentamente foram se impondo em suas obras até fazerem dele o representante maior do Romantismo e do Classicismo europeu. Filho de um  advogado e de uma mulher bastante sensível, com reconhecidos pendores para a ficção, Goethe - dotado de uma percepção poderosa e sutil -  logo se  impressionou com o mundo a sua volta. Rapidamente descobriu o desenho e o poder das palavras. Estudou Direito por vontade do pai, mas a literatura atraiu-o como um imã. Embora tenha publicado muitos livros sobre os mais variados temas e formas, Goethe é conhecido do mundo como o autor do “Werther” e do “Fausto”.

      Era dono de uma inteligência brilhante e de um agudo senso de observação além, é claro, de dispor de recursos variados para expressar e representar  as suas sensações frente à diversidade da vida humana. Publicou poemas, romances, novelas, peças de teatro e teorias científicas, entre outras coisas. Escreveu um livro sobre a evolução da vida vegetal e a metamorfose das plantas; desenvolveu a idéia de uma planta protótipo que tenha dado origem a todos os vegetais e criou uma teoria das cores afirmando que elas surgem da união do claro e do escuro e não da luz propriamente dita, como ensinou Newton.

      Estabeleceu leis biológicas, que hoje soariam familiares aos esquisadores da psicologia analítica, segundo as quais a transformação permanente constituiria o processo fundamental da vida. Era, enfim, um ser humano capaz de penetrar nos mistérios da vida por duas vertentes distintas e, na sensibilidade dele, complementares: através da análise científica e da criação poética, da observação da matéria e também do espírito; do real e do lúdico; das leis da ciência e da arte. Sua obra mais popular, no entanto, é um texto teatral que o ocupou durante quase 60 anos: “Fausto”. É a história de um homem que vende a sua alma ao diabo em troca do saber absoluto. A ambição de Fausto leva-o a fazer um pacto com Mefistófoles. No decorrer da trama, porém, Fausto conhece o amor através de Gretchen e tenta convencer Mefistófoles a anular o pacto. Ele não aceita e continua atormentando Fausto. É uma das obras teatrais mais encenadas no mundo.

      Tive o prazer de traduzir dois de seus romances mais conhecidos: “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, para a Editora Estação Liberdade  e “As Afinidades Eletivas” para a Editora Nova Alexandria. Ambos figuram até hoje entre os 100 livros mais lidos do mundo e serão relançados neste ano em meio às variadas comemorações a ocorrerem por este Brasil afora. A história de Werther, escrita em forma de cartas, é uma espécie de confissão íntima realmente única na literatura alemã; foi escrita em 1774 em apenas quatro semanas logo depois do autor completar 24 anos. Para muitos, trata-se de um romance autobiográfico, fruto da paixão de Goethe por Charlotte Buff a  quem ele conhecera um pouco antes na cidade de Wetzlar e por quem se apaixonara profundamente. Apesar das similaridades e das coincidências com a vida real, o mais importante é que esta obra é uma verdadeira expressão de sua época, pela força poética de sua linguagem e por captar a necessidade de transcendência que agitava então os espíritos juvenis. O próprio Napoleão confessou a Goethe em 1808 que havia lido o livro sete vezes. Ele foi sem dúvida o maior acontecimento literário  do século 18 vindo a se tornar o primeiro bestseller da literatura ocidental e o maior sucesso literário do autor.

      O tema do livro é a paixão, mas não a paixão disciplinada, comportada, condizente com os padrões e as regras vigentes até então. É a paixão sofrida até a mais absoluta destruição, até a aniquilação das forças vitais, na qual as barreiras da moral vêm totalmente abaixo. É o arrebatamento quase insano, a impulsividade livre e solta. Fica em primeiro plano, o conflito entre amor e casamento, como se fossem processos completamente antagônicos e excludentes. Aliás, esta foi a razão de muitas reações iradas do contemporâneos de Goethe  e do relativo escândalo causado pelo livro.

      Naturalmente não foram só esses os alicerces abalados pelo livro; ele coloca em questão também o sentido da moralidade, as conveniências impostas pela sociedade e a força irracional da paixão. 

      Werther nutre um amor impossível - dadas as circunstâncias morais impostas pela sociedade -  que o leva ao suicídio. Ele quer amar e possuir; fundir-se e multiplicar-se. Werther sente-se profundamente atraído pela loucura, pela Natureza e por Charlotte. Ama-a como quem precisa respirar para viver. Deseja estar permanentemente ao lado dela como quem se entrega ao que há de mais poderoso no universo: o amor. Quando finalmente não vê mais saída para a sua paixão extrema e o seu desejo absoluto, ele opta pelo suicídio cavalheiresco, pelo tiro nas têmporas e pela bravura juvenil. A morte surge como apaziguadora de todas as paixões e de todos os conflitos; ela dá um fim ao sofrimento e à dor de se ver eternamente sem amor. Ou pelo menos, sem aquele amor, daquele alguém específico. Contudo, ao contrário dos famosos amantes que povoam o nosso inconsciente representando o amor ideal - como Romeu e Julieta, Abelardo e Heloísa, Tristão e Isolda, Báucis e Filêmon, Paolo e Francesca - o que mais impede a união de ambos é o autocontrole excessivo de Lotte, pois até o final resta a dúvida se ela realmente o amava. Werther, com todo o vigor de sua juventude, ousou morrer em nome do sentimento mais sublime e mais humano; mais harmônico e mais desestruturador; causa de nossas maiores felicidades e de nossos maiores sofrimentos . Em suas atitudes aparentemente imaturas ecoam as palavras que Goethe  anos mais tarde faria  Fausto pronunciar :

      “O que foi concedido a toda a humanidade
       Quero usufruir em meu próprio ser.”

      Já maduro, com 60 anos, Goethe retoma o tema da paixão avassaladora com todas as suas implicações e conseqüências escrevendo “As Afinidades Eletivas”. Utilizando-se do princípio químico pelo qual dois elementos agregados se separam para unirem-se a dois outros elementos, Goethe constrói uma alegoria para demonstrar a determinação das forças da natureza no tocante à atração irrefreável que junta as pessoas. O título do livro foi extraído das Ciências Naturais; trata-se de uma expressão - attractionibus electivis - usada para designar a atração entre dois elementos químicos diferentes, mas afins. Coincidentemente a personagem feminina principal também se chama Charlotte. Ela e o marido recebem em seu castelo um amigo e uma sobrinha.  Na convivência diária as afinidades entre as pessoas vão se tornando mais evidentes e com o passar do tempo uma paixão irresistível irrompe desestruturando a vida do casal. O livro coloca muita coisas em questão: a fidelidade, o casamento e o significado do amor. A par disso, a mulher aparece no romance não como símbolo ou joguete nas mãos dos homens, mas na condição de interlocutora dotada de inteligência e de vontade.

      O amor absoluto, a paixão absoluta, são desejos profundos de toda a humanidade. É algo que está profundamente enraizado em nosso inconsciente e que nos impulsiona para a busca de uma existência plena e feliz. A necessidade de transcendência e o desejo de existir integralmente através  do amor continuam sendo a mola propulsora da vida humana . Talvez seja isto o que ainda instigue tão intensamente as forças inconscientes do homem moderno - dominado pela tecnologia, escravizado por um cotidiano repleto de compromissos, solitário e distante da Natureza - e faça da releitura de obras como estas uma experiência sempre fecunda e gratificante.