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A morte de Gerardo Melo Mourão

Joan Edessom Publicado em 13.03.2007

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(A poesia brasileira mais pobre e mais triste)

 
      Um registro apenas, no meu retorno a esse Prosa @ Poesia. Um registro breve, porque breve é a dor, e a morte de um poeta sempre é um fardo de dor para um outro, que cultiva esse ofício da escritura, um ofício dolorido que, por si, já é um outro fardo. Em oito de janeiro último, o poeta Gerardo Melo Mourão, cearense das Ipueiras, talvez o mais universal dos sertanejos nascidos naquelas brenhas que ficam nas imediações da Matriz de São Gonçalo da Serra dos Cocos, nos imensos sertões que se estendem desde os sopés da Serra Grande da Ibiapaba até os verdes vales do Cariri cearense, em oito de janeiro último, Gerardo havia completado noventa anos. Uma vasta obra, lírica e épica, reconhecida dentro e fora do Brasil, embora, tristemente, menos conhecida por nós do que deveria, fora escrita nesses noventa anos, rendendo ao autor, inclusive, uma indicação ao Nobel de Literatura em 1979. Em 1999 seu poema épico A invenção do mar recebeu o Prêmio Jabuti. Na semana passada, nove de março, dois meses após haver completado noventa anos, Gerardo Melo Mourão morreu. O jornal Diário do Nordeste, de Fortaleza, em sua edição de 10 de março, noticiou que “os verdes mares de Alencar estão menos belos. Morreu ontem, no Rio, aos 90 anos, o poeta e escritor Mello Mourão”. Seu livro A invenção do mar, que lhe rendeu o Jabuti em 1999, é considerado por muitos como sua grande obra. Embora reconheça as grandes qualidades desse livro, talvez, pela minha condição de sertanejo, é a leitura de O país dos Mourões, dentre toda a obra de Gerardo, a que mais me toca, que mais me emociona. Ali me encontro, na universalidade que o poeta dá ao sertão do Ceará, na força épica do seu povo, no lirismo exacerbado, contundente, cortante, que atravessa o livro. Os versos que transcrevo abaixo, e que estão em O país dos Mourões, revelam, para mim, esse casamento épico/lírico de quem o Adalberto Monteiro, esse poeta do sertão do Piauí exilado em São Paulo, me falou certa vez. 

Apalpa, meu amor, meu rosto apalpa, 
não tombei: 
sou eu. 
Como venho dos mortos nem eu sei, 
mas sei que na partilha me tocou 
a herança de sobreviver; 
 
      O que alivia essa dor e essa ausência é que a obra que Gerardo deixou é perene, não é uma obra fugaz, transitória. Seus livros já se inscrevem, certamente, nesse rol dos clássicos da nossa literatura, a brasileira e a universal. Nesse sentido, sou otimista e, quem sabe agora, não se volte mais para a obra desse poeta, não seja ele mais lido e mais estudado. Ao mesmo jornal Diário do Nordeste Gerardo declarou, certa vez: “Não sou otimista nem pessimista. Creio no Brasil. Não podemos tomar consciência da nação e de sua grandeza, enquanto não se criar aqui uma educação para o desenvolvimento do homem, sem a qual não pode haver desenvolvimento da Pólis”. Acho que Gerardo estava certo, e quem sabe a sua poesia nos ajude nessa educação para o desenvolvimento do homem.

      A herança de Gerardo cessou, ele usou-a bem nesse quase século de vida. Mas agora, aquela “herança da sobrevivência” findou. Resta-nos a sua poesia, sua bela poesia a nos lembrar a vida, a luta e o amor. 

Uma pequena amostra da poesia de Gerardo Melo Mourão está em http://www.secrel.com.br/jpoesia/mour.html
 
 

O que as sereias diziam a Ulisses na noite do mar

      Sobre a frase musical de Ivar Frounberg “Was sagen die Sirenen als Odysseus vorbei segelte”

Ninguém jamais ouviu um canto igual
ao canto que te canto
escuta: as ondas e os ventos se calaram e a noite e o mar
só ouvem minha voz — a noite e o mar e tu
marinheiro do mar de rosas verdes:

virás: é um leito de rosas e lençóis de jasmim — e o ritmo
de teu corpo entre a cintura e as ancas
mais o lençol de aromas de meu corpo
em monte de pétalas desfeito:

e dormirás comigo
e os que dormem com deusas
                                                    deuses serão — verás
cada arco de minhas curvas
à forma de teu corpo moldaremos — e apele tua
aprenderá da minha
aroma e maciez e música
e entre garganta e nuca aprenderás
a noite dos que dormem a aurora dos que acordam
sobre os seios das deusas também deuses.

Vem dormir comigo
                                                    e comigo
e todas as sereias.

Todas as deusas se entregam
ao amante que um dia possuiu uma deusa
e então todas as fêmeas dos homens
Helenas, Briseidas e a Penélope tua
hão de implorar às Musas — e as Musas a Eros e Afrodite
a volúpia de uma noite contigo.

Não partas!
                                                    Se partires
as velas de tua nau serão escassas
para enxugar-te as lágrimas — e nunca
nunca mais tocarás a pele das deusas
nunca mais a virilha das fêmeas dos homens
e nunca mais serás um deus
e nunca mais a melodia de uma canção de amor
dos hinos do himeneu:
abelhas mortas para sempre irão morar
na pedra do jazigo de cera
de teus ouvidos cegos.

Mas vem
e vem dormir comigo
                                                    e comigo
                                                    e minhas irmãs todas
                                                    as sereias do mar
                                                    as sereias da terra
                                                    e as sereias dos céus.