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Arma mortal contra a violência?

Erlon Paschoal Publicado em 22.03.2007

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      Uma complexa e intrincada questão aflige uma parte significativa da população brasileira: haverá uma arma mortal capaz de destruir  a violência, aplicar-lhe um golpe fatal, dar-lhe enfim um tiro de misericórdia? Falou-se até mesmo em criar uma secretaria das chacinas e em organizar um esquema para acabar com todos os esquemas na vida pública, que porventura estejam contribuindo para o fomento do crime e facilitando as inúmeras lavagens milionárias e a desova de verbas oficiais.  A intenção é acabar de vez com a criminalidade hedionda, nem que para isso seja necessário adotar o modelo metodológico das quadrilhas organizadas, que mesmo em situações adversas cumprem a sua tarefa com eficiência e sangue frio. Contudo, muitas vezes o despreparo técnico-moral de nossas polícias é imoralmente oposto à competência com que se rouba, se desvia, se acoberta, se desmancha e se mata em nosso país.
 
      Assassinatos medonhos, balas perdidas e a vida desencontrada atingem a todos os lares. Verdadeiras crateras engolem a vida do cidadão de bem e mostram o terreno arenoso que fundamenta grande parte de nossa estrutura social. O espaço aéreo anuncia perigos nunca antes imaginados deixando-nos realmente descontrolados Os mandantes dos preços continuam agindo livremente, seja nas ex-estatais, nos bancos ou nos grandes conglomerados privados, perpetuando assim o seqüestro inflacionário que amplia cada vez mais os grupos dos “sem” e agiganta descaradamente a classe dos destrabalhadores e dos deletados. Tornou-se, aliás,  normalidade protelar pagamentos e parcelar rendimentos mensais deixando ainda mais inseguros aqueles que ainda têm um emprego. Ocorre de fato uma verdadeira inadimplência de obrigações legais, pois o mínimo que um trabalhador espera é um salário no final do mês! A par disso, correm soltas a grilagem das aposentadorias, a distribuição de remédios laranjas, os seqüestros relâmpagos e a partilha de cargos fantasmas nos congressos e nas assembléias. Nesse contexto todos se perguntam: o que esperar de um país onde se falsifica até merenda escolar?

      Todos os anos, a discussão sobre o aumento do salário mínimo torna-se um embate retórico repleto de fórmulas matemáticas e de sofismas suspeitos. O curioso é que nas contas do orçamento público votado pelo Congresso Nacional não são computadas as clonagens de verbas públicas, nem as rachaduras e infiltrações nos orçamentos. Os defensores do neoliberalismo venha-a-nós-ao-vosso-reino-nada arvoram-se em defender os lucros escabrosos dos bancos acentuando a sua importância para o nosso desenvolvimento. Especializaram-se numa verborragia retórica arrogantemente distante da realidade. Segundo eles, por exemplo, não há aumento de desemprego, mas apenas uma “retração da empregabilidade que leva contingentes setoriais a viverem de atividades dessalariadas.”

      É preciso estourar o cativeiro dos assalariados, fazer uma ressonância magnética em todas as contas milionárias, identificar a banda P das classes dirigentes e criar uma política de empregos séria e eficaz, levando em consideração sobretudo os subempregados e os excluídos. Sem isso, não há plano de combate à criminalidade que dê certo.

      Como acabar com a sem-vergonhice numa sociedade na qual o crime compensa e onde reina a mais absoluta impunidade? Desse modo, fica difícil abolir o pressuposto da atitude criminosa, uma vez que o trabalho honesto além de escasso, raramente leva ao enriquecimento lícito. Os péssimos exemplos dados por inúmeros governantes e detentores do poder induzem grande parte da população a transgredir regras sociais elementares e necessárias à convivência pacífica, e a desconsiderar quaisquer impedimentos éticos. Os discursos midiáticos se limitam quase sempre a buscar bodes expiatórios para o aumento desenfreado da violência. O “subversivo”, causa de todos os nossos males durante o regime militar, foi substituído hoje pelo “traficante”, culpado de todas as nossas anomalias atuais. Aliás, é bom lembrar que os grupos de extermínio e os esquadrões da morte tiveram origem naquela famigerada época. Desse modo, mascaram-se as causas e encobrem-se os grandes facínoras,  empurrando-se espertamente a sujeira para debaixo do tapete.

      Nos últimos tempos, a violência passou a ser mostrada por  vários programas de televisão sensacionalistas como algo banal e corriqueiro. Criaram-se na imprensa setores especializados em vender e divulgar assassinatos, atrocidades e bandalheiras generalizadas. Quadrilhas passaram a executar seqüestros a preços populares democratizando assim   um dos crimes mais  sórdidos. De Luiz Estevão a Sérgio Naya, passando por João Alves, o motoboy, o deputado moto-serra, o juiz Nicolau, o comando vermelho, o rodízio de pitta em São Paulo, o retorno II de Maluf e o Collor, anacondas, vampiros e PCCs... - só para citar alguns de uma lista interminável -, abundam em  nossa realidade infâmias e vigarices que rapidamente caem no esquecimento  geral.

      Nos dias de hoje, quando somos incessantemente assediados por falsas promessas, logomarcas milagrosas e ilusões cativantes, uma certa dose de ceticismo é algo bastante saudável. Nesse mundo de aparências e slogans convincentes necessitamos de um sentimento ético profundo para nos orientarmos em meio a esse emaranhado  de  aberrações e  separarmos corretamente o “jigro do troio”. A maioria da população vive bombardeada por imagens reais e fictícias repletas de crueldade, sem ter nem sequer  acesso à tecla “Ajuda”. Mas ao final, creio, nossa alegria e nossa fé contagiantes nos salvarão de um mundo dominado apenas por corruptos contumazes, cínicos inveterados, canalhas convictos e criminosos perversos. Segundo os chineses, a adversidade e as crises são extremamente importantes para o fortalecimento do caráter. Que assim seja!