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O futuro do presente

Erlon Paschoal Publicado em 11.04.2007

As contradições que assolam a vida do brasileiro nesses tempos de globalização chegam muitas vezes a ser risíveis de tão desprositadas.

      Esta passagem do milênio, carregada de efeitos simbólicos, representa sem dúvida uma época de mudanças profundas em todas as esferas da vida humana. Com a derrocada do comunismo, das ideologias e das utopias igualitárias, a paixão inebriante pelo lucro, que desconsidera quaisquer parâmetros éticos e quaisquer sentimentos humanitários, passou a ser o impulso orientador do comportamento do homem urbano moderno. A “economização” de todas as áreas da vida, baseada num suposto direito à liberdade absoluta de exploração inescrupulosa do próximo, leva inevitavelmente à permissividade e à patifaria generalizada. Lamentavelmente, esta é a visão de alguns jovens sociólogos quanto ao futuro da humanidade, em virtude dos ventos neoliberais que sopram a partir do hemisfério Norte. Será que isso não passa de uma visão escatológica produzida por alguns intelectuais primeiro-mundistas entediados com a saturação do conforto e do consumo descomedido? Ou seria apenas um “nhenhenhém” pessimista e inconseqüente?

Ruína e humilhação

      De qualquer modo, sabemos que este momento de transformação contém potencialmente todas as possibilidades: da degeneração geral à descoberta de novos caminhos; da barbárie pós-moderna, retratada nos filmes futuristas e nas ações internacionais de paz norte-americanas, à reorganização da sociedade com base na justiça e na solidariedade. Ou segundo a sensibilidade e a interpretação totalizante de Fernando Pessoa:

Deus ao mar o perigo e o abismo deu
Mas nele é que espelhou o céu.

      A rápida readaptação das estruturas produtivas, conforme as novas exigências do mercado e, sobretudo, da concorrência, mostram já uma de suas facetas que parece irreversível: a diminuição acelerada do número de empregos, fruto da automatização, a par do aumento constante da população, particularmente nas camadas mais carentes. Como o mundo é irônico! Há algumas décadas, a abolição do emprego significava a libertação, hoje significa a ruína e a humilhação! No Brasil há o agravante da falta de uma formação profissional compatível com a vida moderna e a existência de métodos de ensino obsoletos e muitas vezes absolutamente inúteis. Por conseguinte, a massa de excluídos cresce assustadoramente a nossa volta e as classes dirigentes limitam-se quase sempre a ridicularizá-la e a exigir ironicamente que se comporte de maneira imaculadamente íntegra e pacífica. Por outro lado, os nossos economistas neoliberais defensores do status quo e dos atuais índices de distribuição de renda ambicionam conseguir algo insólito e sui generis nestes nossos tempos de violência a granel: compatibilizar 50 milhões de miseráveis com a inflação de um dígito e o crescimento do PIB. Perversão ou cegueira? Frieza mórbida ou obsessão contábil?

Saídas para um futuro mais digno

      Enquanto isso, a televisão distrai diariamente milhões de pessoas, afastando-as, com as melhores das intenções, é claro, dos problemas da vida e da realidade circundante, colocando-as na condição de Tântalos destinados a ver ininterruptamente o que a bondosa sociedade de consumo produz de melhor. Nossa fábrica de sonhos estimula os meninos a se imaginarem ronaldinhos big-brothers e as meninas a se verem como futuras louras protuberantes mostrando suas libidinosas facetas. Os meios de comunicação, por sua vez, enfatizam a todo o momento, como disse certa ocasião Hermann Hesse, “o otimismo despreocupado, a cômoda recusa a todo problema profundo, a renúncia covarde e orgulhosa a todo questionamento realmente importante, a fruição pura e simples dos prazeres momentâneos”, através de imagens nas quais sempre nos vemos rodeados por loiras esbeltas, automóveis velozes e cartões de crédito que nos fazem sentir donos do mundo. Um otimismo americanizado, obviamente tolo, hollywoodianamente feliz, intoxicando a todos e fazendo com que quase ninguém se atenha a qualquer reflexão realmente séria. Ao mesmo tempo, cenas de terror horripilantes e falcatruas escandalosas vão povoando o cotidiano de nossas melhores famílias. Em inúmeras câmaras municipais e assembléias legislativas parece que uma mão suja a outra. O povo jurado de salário-mínimo acaba vivendo assim entre a miséria e a diversão teleguiada. Em muitos casos escabrosos - sanguessugas, vampiros e a corrupção ativa, passiva e de dupla penetração, por exemplo -, o judiciário simplesmente aplica a lei do silêncio.

      Neste contexto, uma possibilidade seria então investirmos nossos maiores esforços em nossas maiores carências. Por mais paradoxal que pareça, nossos melhores produtos continuam sendo nossa alegria, nossa criatividade e nossa disponibilidade para inventarmos jeitos e caminhos que burlem a inexorabilidade de um futuro que não desejamos.

      Há sem dúvida inúmeras possibilidades para se desdobrar este rico potencial existente e construir o equilíbrio e um futuro mais digno e mais salutar para os habitantes deste imenso e complexo país. Por que não estimular, por exemplo, num número cada vez maior de pessoas a prática da atividade artística, não só pelas conseqüências econômicas positivas e pela geração de empregos, mas, sobretudo pelos efeitos psicológicos e sociais benéficos e duradouros? O significado que a produção artística e o ato criativo podem adquirir num país que tanta atenção desperta na maior parte do mundo é incomensurável. Em suma, a aprendizagem e a ocupação artística pode dar um sentido mais amplo à existência dessas novas gerações confrontadas cotidianamente com a indiferença e o vazio, além de lhes possibilitar meios de expressão social e fazer delas pessoas mais sensíveis e probas. Afinal, ética e estética sempre caminharam juntas e o amante da arte, por natureza, reluta em ser fraudulento e a usar o seu talento e as suas habilidades para disseminar atitudes desumanas e incompatíveis com a criação do belo.

      Sem dúvida, à arte cabe esta nobre e singela tarefa no processo de reumanização de nossa sociedade, tão deteriorada eticamente, neste início do terceiro milênio. Que nossos dirigentes enxerguem o suficiente para lhe assegurarem este importante papel no futuro, que já bate à nossa porta! Pois, enquanto os políticos e os administradores públicos são responsáveis pela organização social, ao artista - segundo Hermann Hesse - “cumpre descobrir e mostrar as possibilidades da beleza, do amor e da paz.” Eis aí, uma ótima parceria.


Nota

Esse artigo foi originalmente publicado em:

http://www.culturaemercado.com.br/setor.php?setor=3&pid=2671