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Esses publicitários que pintam e bordam

Italo Bianchi Publicado em 20.04.2007

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      Há quase 40 anos, recém-instalado no Recife – vindo de São Paulo, oriundo da Itália – recebi um convite para conhecer o pintor Lula Cardoso Ayres, visitando-o no seu ateliê. Simpatizamos à primeira vista, entabulando uma longa conversa sobre arte e artistas do século 20. No meio do papo, então, ele confessou-me o motivo do convite. Um empresário, seu amigo, tinha submetido à sua apreciação uma marca desenhada por um italianinho desconhecido na praça. O cavalheiro tinha gostado, mas queria a opinião abalizada de um artista. Aí, porém, a situação se inverteu. Foi ele que se confessou autor, anos antes, da criação de duas marcas tradicionais na região, quase que pedindo desculpas por não ter sido um trabalho profissional de publicitário. Custou-me convencê-lo de que elas estavam muito bem resolvidas, considerando especialmente a época em que foram desenhadas.

      Lembrei desse episódio apenas para introduzir um assunto escabroso: os profissionais de criação das agências – redatores  e diretores de arte – são acusados, freqüentemente, de exercer, em paralelo, atividades artísticas para as quais se consideram vocacionados, mas se dedicam profissionalmente à propaganda, usando seus pendores apenas por ser essa atividade um meio de vida mais conveniente, mais rendosa, com mais estabilidade, etc. Em outras palavras, tratar-se-ia de artistas frustrados que remediariam sua existência, refugiando-se na publicidade.
É claro que eu não aceito essa opinião furada e maldosa e estou sempre disposto a  polemizar sobre o assunto com qualquer um, valendo-me de uma autoridade conceitual e prática que minha longa convivência com artistas e publicitários me confere. Não cito nomes para não cometer injustiças, mas conheço, assim como muitos leitores desse artigo devem conhecer, profissionais famosos da propaganda que sempre fizeram as duas coisas e outros que a uma certa altura da vida optaram por uma só das duas atividades, tendo, porém, que dar alguma satisfação à sociedade.

      A emoção de criar não tem limites e não tem fronteiras, mas tem sempre preconceitos querendo sufocá-la. É por isso que se pensa por aí não ser conveniente que uma recatada estagiária selecione imagens de homens pelados no computador ou que o velho vigia tricote um xale para a sua companheira.