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O planeta dos americanos (2)

Erlon Paschoal Publicado em 03.05.2007

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      Os norte-americanos continuam empenhados em sua sanha de exterminar opositores e quaisquer resquícios de inimizade islâmica perigosa. Vão impor sua forma de viver e pensar, nem que tenham de explodir todas as toras e montanhas que ainda teimam em ficar de pé. O julgamento e a condenação, de Sadan Hussein selou enfim a vitória da democracia imperialista sobre os excluídos, que agora festejam – assim vemos na televisão - sua libertação mostrando a cara, indo ao cinema e, quem sabe, até brindando com  uma Coca-Cola. Tiveram a honra de serem atingidos por bombas de milhões de dólares, lançadas por aviões caríssimos, e de terem servido de teste para ataques integrados das Forças de Paz, determinadas a matar até o último homem, caso fosse preciso. Os milhões de refugiados e os milhares de mortos nos bombardeios não passaram de pequenos efeitos colaterais, comuns neste tipo de operação, mas que não devem despertar maiores preocupações. Segundo relatos de militares americanos, falta pouco para que a ordem seja finalmente imposta aos rebeldes e desordeiros. Todos precisam então obedecer aos preceitos americanos sob a ameaça de serem deserdados, de não receberem nada, e ainda por cima serem tachados de terroristas. Já pensou ?
 
      Mas resta ainda uma pequena dúvida. Quem é mais assassino: aquele que amarra explosivos ao corpo e vai para os ares junto com eles, ou aquele que de um avião ou de um navio, lança uma bomba teleguiada a mais de mil quilômetros de distância? Como sabemos que os atentados terroristas acabam sempre servindo à direita, os insanos do Pentágono, da Cia e seus respectivos cúmplices, tentarão agora dominar o mundo, espalhar ainda mais bases militares em território muçulmano e subjugar  sem piedade outras culturas e outros povos, que buscam caminhos próprios, tais como o cubano, o coreano do Norte, o iraniano, o venezuelano e o chinês, por exemplo. Para parar a  Argentina bastaram os computadores e alguns acordos pérfidos executados por especialistas na destruição econômica alheia. Não foi necessário o uso de bombas ou porta-aviões como no caso das Malvinas, o que tornou tudo mais barato e menos traumático. Neste sentido, o que será do terceiro-mundo de agora em diante? Teremos que apenas cumprir ordens ditadas pelos poderosos, sem reclamar e sem ao menos poder fazer uso de um carro-bomba? E enquanto isso, os americanos investem sem cessar no aperfeiçoamento e na criação de novas armas e bombas inteligentes. Que alternativa de defesa restará aos outros povos contra a dominação americana?

      Esta postura do estadista com o maior poder armamentista  e proprietário exclusivo do maior número de bombas nucleares, químicas, biológicas, bacteriológicas e outras mais lights como aquelas que arrasaram Hiroshima e Nagazaki, desvirtua a opinião pública e desvia a sua atenção dos verdadeiros problemas e contradições mundiais. Todos sabemos que a injustiça e a miséria formam um campo propício para o cultivo de rancores e a  disseminação indiscriminada da violência. Neste contexto, as aberrações vêm à tona e se tornam algo cotidiano na mídia. Recentemente assistimos impotentes a um ataque insano perpetrado pelos israelenses, com o aval e apoio tecnológico dos norte-americanos,  aos territórios palestinos na Faixa de Gaza e no Líbano. Usando como pretexto o sequestro de um soldado  destruíram  o abastecimento de água e luz de mais de um milhão de pessoas,  assassinaram centenas de cidadãos, puseram abaixo centenas de edificações e lançaram bombas em dezenas de alvos civis. Os milhares de refugiados, feridos e mutilados  nos bombardeios não passam de pequenos efeitos colaterais, comuns neste tipo de operação, segundo declarações oficiais dos verdugos. Isso tudo por enquanto, pois parece que a sede de vingança e de aniquilação não vai parar por aí.

      Por uma dessas tragédias irônicas da história humana o holocausto acompanha de perto o povo judeu: numa época foi vítima, agora transforma-se num carrasco implacável. Freud certa vez escreveu que o torturado quando assume o papel inverso torna-se ainda mais frio e cruel. Um triste e lamentável espetáculo mostrado todos os dias pelas TVs e jornais de todo o mundo: pessoas indefesas tentando se proteger de armamentos sofisticados e bombas inteligentes; feridos empilhados em hospitais improvisados e crianças com o horror estampado no rosto.

      Não se trata portanto de sermos a favor ou contra o judeu, a favor ou contra o muçulmano, a favor ou contra o norte-americano.Trata-se de sermos a favor da vida, do respeito mútuo e da dignidade humana.

       Será que o presidente do país guardião da liberdade, considerado a princípio como um espertalhão retardado, conseguirá o que Hitler e Stalin não conseguiram, apesar de todo empenho? Enquanto sua trupe de bushs de canhão exige obsessivamente a invasão dos outros países do eixo do mal, o resto do mundo assiste a tudo impassível e inerte, com raras vozes dissonantes ousando  se opor. Desde o início da invasão americana foram assassinados 700 mil iraquianos e 75 mil afegãos, afora os desabrigados, mutilados e torturados. Quanto mais temos de esperar?

       Felizmente vivemos num país pacífico, sem guerras e sem extremismos. Com chacinas ou sem chacinas, com desvios ou sem desvios, com banda podre ou sem banda podre, com seqüestros ou sem seqüestros, com controladores descontrolados ou não, vivemos em paz e sem nenhuma grande ameaça da ordem pública. É claro, temos  o corrupto serial, o deputado premeditado, o desviador compulsivo, o vereador maquiado, o policial padrão do crime organizado, o bandido seqüestrador fardado e o juiz das causas e  verbas próprias. Fora isso, sobra apenas o saque das verbas públicas, os loteamentos clandestinos do orçamento federal, o roubo indiscriminado, a miséria abusiva e  a contravenção institucionalizada. 
 
      Enquanto os americanos  vão levando a cabo seu plano neonazista megalomaníaco de extermínio e de dominação incondicional do planeta, nós vamos nos preparando para o combate à corrupção e à miséria. Sem dúvida, há muito por fazer. Ao mesmo tempo, precisamos ser otimistas, e lutar para que  a vigarice  tão cotidiana aqui nos trópicos algum dia tenha fim. Nosso país é lindo e aberto a todas as  possibilidades. Façamos dele um gigante acordado,  ciente de suas responsabilidades caseiras e mundiais.
 
      Vamos nos negar a tomar o caminho da discriminação e da intolerância. Peguemos todos a contramão: cultivando o amor e a solidariedade, o respeito ao próximo e o senso de  justiça. Só assim uma sociedade mais humana pode vir ao nosso encontro algum dia.