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Somos responsáveis?

Erlon Paschoal Publicado em 17.05.2007

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      Enfim, todos ficamos contentes com o início de mais um ciclo na história da política brasileira e, com todo ardor, desejamos o melhor dos mundos possíveis para os próximos anos, seja no plano pessoal ou no coletivo. A esperança, tradicionalmente incluída entre as profissões do brasileiro, desempenha nesses momentos um papel de sutil relevância.
 
      Ao mesmo tempo, sabemos que por aqui, infelizmente, ainda predominam as mutretas e falcatruas, os crimes impunes e a injustiça social, a miséria degradante e a riqueza ostensiva, as máfias dos juízes lalau,  dos vampiros, dos sanguessugas e dos percevejos, entre outras, a infame distribuição de renda e os desvios escorchantes do dinheiro público, o descaso cínico e a compaixão hipócrita de nossa classe dirigente, tudo temperado com muito céu azul, mar e sol, muita tevê, muita descontração e muito humor, muitas bundas balançando e jogadores beijando apaixonadamente o distintivo da camisa. E muita irresponsabilidade também. Sobretudo neste momento repleto de contradições na ordem mundial, protagonizadas pelas inúmeras guerras, pelo vírus da desempregabilidade e da falta de ética, pela lucro excessivo dos bancos e  as disputas entre quadrilhas organizadas, repensar os próprios pontos fracos é sinal de sensatez. Afinal, vivemos num país onde muitas vezes  o maior ladrão é o juiz.

      Mas aí está. Quem sabe, o que mais nos falta seja : responsabilidade. Será que se trata de uma noção básica para se aprender a viver pacífica e harmoniosamente em sociedade?  Ou não passa de resquícios de algum sermão moralista ressurgindo em nossa memória? Seria possível criar uma sociedade mais justa e mais humana sem assumir responsabilidades? E - o mais importante: aprender a ser responsável tem de ser necessariamente algo doloroso, penoso? Ou pode ser prazeroso e gratificante? O teatrólogo e escritor alemão Paul Schallück (1922-1976), numa de sua crônicas levantou as seguintes questões a respeito da importância deste conceito numa sociedade verdadeiramente democrática:

      “Sem responsabilidade pouca contribuição daremos ao  mundo em que vivemos.  Algum dia, cada um de nós tem de assumir qualquer tipo de responsabilidade ou sentir-se responsável por alguma coisa qualquer, ainda que seja apenas por si mesmo. Mas o que significa de fato, assumir ou ter responsabilidade ? Sentir-se conscientemente responsável ? O que significa responsabilidade ou senso de responsabilidade ?  
               
      Se uma pessoa se ajusta às normas sociais, dizemos então que  ela se comporta de maneira responsável. Mas por vezes quando ela se rebela, dizemos  também  que ela agiu com senso de  responsabilidade. Quando e onde aprendemos pela primeira vez, que existe algo  chamado ‘responsabilidade’ ? Na família, na escola, no trabalho ? De que maneira os pais, professores e patrões pensam que estão transmitindo a noção de responsabilidade ? Como eles realmente ensinam aos seus próximos o senso de responsabilidade ? Que idéia afinal todos nós fazemos disso?    E de quais fatos e  concepções depende o nosso senso de responsabilidade ?  Sabemos muito pouco a respeito. E além de sabermos pouco, quase não refletimos  sobre   este conceito fundamental sem o qual não se pode viver de maneira  democrática . Mesmo assim, tentamos viver e agir de acordo com seus parâmetros.

      Na linguagem cotidiana entendemos ‘responsabilidade’ ou ‘senso de responsabilidade’ como sinônimo de ‘credibilidade’, ‘cumprimento do dever’, ‘escrupulosidade’. Mas isto não expressa  todo o sentido do conceito. A linguagem jurídica, ao considerar a responsabilidade, refere-se à imputabilidade psicológica de uma pessoa, à  autoria de um ato  ou de uma ação. Ela pode então ser responsabilizada por tudo o que fizer. Numa ordem hierárquica, ou seja, numa sociedade claramente estruturada de cima para baixo, a responsabilidade eqüivale à autoridade e ao poder de decisão. A responsabilidade moral cabe sempre a quem ordena e não a quem executa.

      A ética contemporânea, contudo, ao considerar o conceito ‘responsabilidade’, refere-se sempre ao relacionamento com o próximo. Assim, o  senso de responsabilidade consiste na consciência de  ser obrigado a  responder moralmente pelas conseqüências previsíveis e imprevisíveis dos próprios atos. Como quer que se defina este conceito , basta menciona-lo para despertar nas  pessoas o medo  e o sentimento de culpa. A causa disto reside na educação a que todos nós em maior ou menor grau fomos submetidos. Geralmente repreendemos e obrigamos a criança  a demonstrar  o seu senso de responsabilidade, mas quase nunca a   elogiamos  por ter se comportado de maneira responsável. Desse modo, ela vai aprendendo a considerar a ‘responsabilidade’ como algo incômodo, desagradável e penoso. E até nos livrarmos  de tais experiências negativas através de uma evolução posterior e de uma melhor compreensão, costumamos  nos curvar irrefletidamente ou por mero interesse ante as exigências dos outros ou da  sociedade,  e a chamar isto então de ‘comportamento responsável’.

      Por esta razão, a responsabilidade passou a ser vista em nossa educação como algo amargo e custoso. Além disso,  ao invés de nos utilizarmos dela para atingir o prazer da auto-realização, cedemos freqüentemente aos outros nosso direito de decidir, e preferimos assumir padrões de pensamento que nos permitam atribuir aos outros a responsabilidade pelos nossos próprios atos, sobretudo quando se trata de desvios morais. ‘Responsabilidade’ e ‘senso de responsabilidade’ são conceitos fundamentais numa democracia, mas  infelizmente refletimos muito pouco sobre eles.”

      Sem dúvida, será sempre possível compatibilizar a aprendizagem com a reflexão e a alegria. Afinal, trata-se de algo sério e necessário à convivência sadia entre seres humanos civilizados. A prática da arte, aliás é uma prova feliz e sempre presente da eficácia desta combinação. O incentivo às atividades lúdicas possibilita sempre uma melhor compreensão de si mesmo e da realidade social. Infelizmente, a maioria de nossos dirigentes se nega a perceber tamanha evidência.

      De qualquer modo, um novo momento histórico, um novo milênio está começando e embalados pela esperança, podemos imaginar um país ainda melhor, mais justo e mais responsável.