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A grande dúvida pública

Erlon Paschoal Publicado em 14.06.2007

O que fazer para resolver a questão da dúvida pública? Todo o povo brasileiro se pergunta indignado quando poderá confiar verdadeiramente nos seus juizes e desembargadores, nos políticos e delegados, e nas pessoas que ocupam cargos de suma importância na sociedade...

      Às vezes tem-se a impressão de que na cúpula político-jurídica brasileira predominam os calhordas, os canalhas, os cínicos, os contraventores, os corruptos, os embusteiros, os espertalhões, os falsários, os fraudulentos, os impostores, os irresponsáveis, os larápios, os patifes,  os prevaricadores, os sacanas, os salafrários, os trambiqueiros, os trapaceiros e os vigaristas. Será isso verdade? Será que não estamos enganados e tudo não passa de uma grande brincadeira? Há pouco descobrimos estarrecidos que o detentor do cargo máximo da magistratura brasileira estava envolvido com a contravenção. Como isso é possível? Os seus porta-vozes  tentaram de todas as formas nos convencer de que tudo não passou de uma coincidência e sugeriram o seus afastamento por doença, como se um desvio moral desta magnitude fosse equivalente a uma gripe mal curada. 

      Enquanto isso, e assistindo a tudo boquiabertos, milhões de pessoas continuam vivendo na e da miséria, justificada pelo argumento utilizado por inúmeros economistas de que só seremos capazes de proporcionar a todos o bem estar social e uma renda per capita digna se conseguiremos atingir um nível de crescimento econômico acima de 5%, se conseguirmos ser a Índia!. A classe média, por sua vez,  tenta a todo momento fugir do dragão dos juros altos, escapar do fantasma do rebaixamento, safar-se da boca do leão, escapulir dos pedágios, conferir os pesos e medidas, esquivar-se das falsificações, livrar-se das multas e taxas extras, defender-se da pirataria tributária oficial e sair da mira dos bandidos.

      Nesta cruzada contra a corrupção posta em prática enfim por este governo temos no mínimo a possibilidade de identificar os bandos, as quadrilhas e os esquemas, mesmo que ninguém seja preso, como tem acontecido. Sabemos que muitas vezes há insuficiência de provas, pois o dinheiro passa por uma lavagem high tech muito eficaz; neste caso não há como incriminar os culpados. Dizem, por exemplo, que o Maluf está exiliado no Brasil, pois se desembarcar na França, nos Estados Unidos ou na Suíça será preso imediatamente.

      Nosso país parece ser um dos únicos onde a vítima é culpada, a polícia é bandida, o hospital é o pior lugar para se curar, o serviço público é visto como favor e político é sinônimo de larápio e vigarista; onde a certeza da impunidade torna os crimes mais hediondos, ao assassinatos mais gratuitos, as patifarias mais desavergonhadas, algo trivial e cotidiano. Palavras como “seqüestro”, “extermínio”, “desova”, “acerto de contas”, “queima de arquivo”, “presunto”, “bala perdida”, “chacina” e “crime de mando” tornaram-se, infelizmente, corriqueiras e banais. Além disso, sabemos muito bem que numa ordem social na qual o crime compensa, a reabilitação e a recuperação de seres humanos criados quase como bichos, sem qualquer apoio do poder público, fica cada vez mais difícil em meio ao descaso, à fome e à violência generalizada.

      Dias atrás um rapaz encontrou um bebê num bueiro, jogado pela mãe logo depois de nascer, e o vendeu para uma quadrilha que comercializa órgãos, chefiada por um médico credenciado pelo INSS, proprietário de uma clínica especializada em abortos e sócio de um célebre traficante do Rio de Janeiro, irmão do deputado mais votado daquele Estado, que controla dois laboratórios clandestinos e ficou famoso recentemente por intermediar laudos médicos fraudulentos. O Procon  acionou os órgãos competentes para tentar dar uma reviravolta  no caso, mas todos os seus esforços foram em vão, já que o juiz encarregado do caso, inocentado recentemente num processo de extorsão, é amigo pessoal  do advogado contratado para defender os acusados,  conhecido como um dos chefes de um dos mais temíveis grupos de extermínio da região.... Mas sempre há uma saída para tudo. É preciso paciência e fé no bom senso de quem no momento dirige este país.

      As vezes não sabemos exatamente se estamos entre os achados ou entre os perdidos, mas talvez resida aí uma das características mais marcantes de nossa realidade: os contrastes extremos, quase excludentes, os discursos verborrágicos e hipocritamente sinceros em meio a mais absoluta vigarice, e as combinações surrealistas que nos fazem sentir muitas vezes num pesadelo kafkiano ou num sonho do país das maravilhas; é o tão falado efeito gangorra que nos joga da euforia ao desespero, da tragédia mais calhorda à explosão máxima de alegria telefabricada. Mas será que aqui, sob esse belo céu azul, há algum favorecimento? Há vazamento de informações confidenciais; há esquemas de propinas? Há corrupção? Há desvio de verbas? Há impunidade; há nepotismo? Há prevaricação? Há políticos B.O? Há algum descaso?  Há crime organizado?  Novamente a dúvida pública nos assola, exigindo respostas imediatas e objetivas.

      De qualquer modo temos a pausa para a Copa América e  logo em seguida virão os carnavais fora de época  Mas apesar de vivermos no país das bundas, é preciso encarar os problemas de frente.  Não se pode simplesmente esquecer de todas estas questões como se fossem piadas sem grandes consequências e cair na folia, convictos de que a história seguirá o seu curso e de que tudo será feito com o melhor das intenções.  Somos enfim parte de toda essa história e a nossa postura diante dela é que vai determinar o seu curso.