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O Sonho do Prisioneiro

Eugenio Montale Publicado em 12.07.2007

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As madrugadas e as noites aqui mal se distinguem.

O ziguezague dos estorninhos sobre as torres de guarda
nos dias de luta, minhas únicas asas,
um fio de ar polar,
o olho do carcereiro pela portinhola,
o escalar de nozes esmagadas, um oleoso
chiar de fritura vindo das caves, algum assado no espeto
real ou suposto – mas a palha é ouro,
a lanterna vinosa uma lareira
se adormecendo me imagino a teus pés.

A pena dura desde sempre, sem um porquê.
Dizem que quem renega e assina
pode salvar-se deste extermínio de gansos;
que quem se acusa a si mesmo, mas atraiçoa
e vende a carne de outros, agarra o mexedor
em de vez terminar mexido no pâté
destinado aos Deuses pestilentos.

Incapaz de pensar, chagado
pelo enxerga que me fere, confundo-me
com o vôo da traça que minha sola
esfarinha sobre o chã,
com os furta-cores quimonos de luz
que a aurora estende dos torreões,
senti no ar o cheiro morno
das roscas vindo dos fornos,
olhei em volta, conjurei
arco-íris nos horizontes de teias
e pétalas nas treliças de minhas grades,
me vi exalçado, e recaí
nas profundezas onde o século é o minuto –
e os golpes se repetem e os passos,
e continuo a ignorar se estarei no festim
como estufador ou estufado. A espera é longa,
e o meu sonho de ti não tem fim.
 

Eugenio Montale Poesias
Seleção, tradução e notas de Geraldo Holanda Cavalcanti
Prefácio de Luciana Stegagno Picchio
Editora Record - Edição Bilíngüe, 1997