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Um idioma utilitário

Italo Bianchi Publicado em 30.08.2007

E a história se repete. Quanta gente já não teve oportunidade de comprovar essa afirmação ao se aprofundar em alguma disciplina humanista? Em comunicação, então, pode-se afirmar que isso é lei, desde o emprego das formas mais elementares de troca de informações...

      Se o leitor tiver alguma curiosidade e um pouco de paciência, vou tentar traçar aqui um paralelo entre a língua latina, vulgarizada pelas conquistas territoriais do império romano e, em seguida, adotada pela igreja católica (que os lingüistas chamam de latim eclesiástico) e o idioma inglês numa versão corrompida, falada hoje, a torto e a direito, por pura conveniência. O fenômeno e as conseqüências são os mesmos. Quando um cidadão não mamou com o leite materno ou não herdou culturalmente um idioma do qual, porém, precisa, provoca-se a sua simplificação, reduzindo o vocabulário, encolhendo as regras gramaticais e, sobretudo, despindo-o de qualquer encanto literário. Enfim, cria-se um idioma utilitário, universal, eficiente e indispensável, mas sem sabor e sem graça.

      Nem seria preciso dizer, mas tem momentos, no entanto, em que reafirmar certas obviedades faz bem à consciência da gente. Quero dizer que o latim dos breviários e dos missais não sepultou a língua de Virgílio que, naquele tempo, continuou viva na boca dos eruditos e continua palpitante nas mãos dos latinistas. Assim como o inglês castiço continua intocável para quem tem direito por origem ou por formação. Nem a linguagem superutilitária e irreversível do inglês da informática disseminado pelo mundo todo poderá lançar alguma sombra sobre as obras poéticas e literárias da terra de Shakespeare (e adjacências) que iluminam a mente dos cultores daquele idioma.

      No começo desta matéria eu disse que a história se repete. Devia ter dito “quase sempre”, pois temos o exemplo excepcional e soberbo de um idioma que ao longo de um século teve todas as oportunidades para ceder à tentação de admitir uma versão macarrônica, mas não o fez. Refiro-me à língua francesa que a partir de uma Revolução ideológica, que foi o grande divisor de águas entre o barroco e a consolidação da Revolução Industrial, tornou-se a linguagem-mestra, no mundo ocidental, na divulgação de novos saberes filosóficos, científicos, artísticos... Até que mudanças geopolíticas no começo do séc. 20 a relegaram a um nível secundário. Mas os franceses, donos desse belíssimo idioma, não se conformam com isso. Inutilmente, pois a realidade dinâmica da comunicação não depende da vontade de ninguém.

      Simplesmente acontece.

      Só para lembrar, assim, a esmo, a importância do francês durante o séc. 19 que fazia prever a sua universalização no séc. 20, mas que não aconteceu por razões outras: em quase todas as escolas dos países civilizados, ele era ensinado como segundo idioma nos cursos secundários... a literatura russa – uma língua que somente os russos falam – foi popularizada graças às traduções em francês... até poucos anos atrás, o francês era o idioma oficial da comunicação diplomática... etc. etc. E tudo isso preservando, ou quase, a sua integridade.

      Estou citando o caso da preservação do francês por mero capricho, já que os tempos eram outros, mas também porque estou convencido que, no fundo, temos que considerar uma realidade essencialmente cultural. Apenas o espírito prático, o pragmatismo e uma certa dose de indiferença estética dos nossos irmãos norte-americanos podiam favorecer a formação de um idioleto utilitário universal, baseado em sua língua. Provavelmente, dentro de pouco tempo, deveremos manifestar toda a nossa gratidão. Afinal, ainda que de uma forma imprevisível, eles estão realizando um desejo dos primeiros humanistas italianos que forjaram o Renascimento e sonhavam com um idioma universal que os desobrigassem de ter que aprender grego, latim, árabe...