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O canto

Eugenio Florit Publicado em 18.03.2008

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Para que toda esta miséria alce uma noite o vôo, mais alta do que a Lua.
Para que o tanquezinho adormecido cresça em rumor de catarata.
Para que ao grão de poeira chegue a luz irisada que viaja no vento.
Para que o vento triste remova o fundo escuro das florestas.
Para que a ave com frio cruze, já livre, as manhãs.
Para que saibamos um dia qual é a cor dos sonhos.
Para que não fique o tremor na mão, e o medo não sele a boca.
Para que ao erguer a fronte suportemos a mirada do céu.
Para que o pé marche firme sobre recordações murchas de angústia.
Para que tu não me digas que estás bem longe da minha rota esperança.
Para que eu possa exclamar, com a voz nas nuvens, que te amo.
Para que tudo isto suceda uma tarde, com sol, com pombas, e com brisas,
         eu canto.

Grandes vozes líricas hispano-americanas
Seleção e Tradução: Aurélio Buarque de Holanda Ferreira
Editora Nova Fronteira – edição 1990