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Miosótis, mosaicos e a sabedoria de uma mestra

Lucia Ana Publicado em 18.07.2008

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      Aos sete anos de idade entrei pela primeira vez numa sala de aula.
      
      O Grupo Escolar Marechal Pires Ferreira se mostrou grandioso, frio e distante.

      Um mundo completamente novo. Não lembro como cheguei ao Grupo Escolar. Nas lembranças que tenho, me vejo já sentada numa carteira dupla de madeira. Estava na primeira fila. O sentimento que tomava conta de mim era o medo. Sozinha, longe de casa, pela primeira vez sem meus pais e irmãos. A única companhia era uma bolsa de plástico vermelha que agarrava como uma proteção. Sentia-me acuada. Olhava as outras crianças, todas desconhecidas, estava apavorada. Os olhares se cruzavam, era a única comunicação. Que lugar era aquele onde não conhecia ninguém? Momentos de agonia e aflição.

      De repente o silêncio foi quebrado e a professora entrou na sala. Todos os alunos ficaram de pé. Meu coração queria sair pela boca, batia tão forte que eu ouvia suas pancadas. Minhas mãos estavam geladas e suadas. Todos estavam imóveis, penso que compartilhávamos os mesmos sentimentos.
      
      A professora mandou que sentássemos. Ela começou a falar, fazia sua apresentação. Sua voz era como música agradável e enquanto falava me acalmava. Dizia o nome dos pais das crianças, ela conhecia cada um. Me senti mais segura e comecei a ver a turma com outros olhos. 
      
      A primeira aula foi a produção de um desenho. Ela pediu que cada um fizesse um desenho das coisas de que gostasse em casa. Fiz um lindo jardim e pintei todo de azul. E fiz uma casa com piso de quadrados coloridos. Enquanto pintávamos aos poucos nos aproximávamos, a troca de coleção, lápis de cor, estabelecia relações de afeto, e no final da aula o ambiente era amigável. Os sorrisos iluminavam os rostinhos antes assustados.                    
      
      Dona Terezinha de Jesus da Silva Pinheiro era a professora, o carinho e a atenção com que tratou aquelas crianças no seu primeiro dia de aula foi algo imensurável. A tranquilidade e a segurança que nos transmitiu, a paciência e, principamente, suas primeiras palavras, doses de amor que tocaram nossos corações, nos deu confiança e a certeza de que ali era a nossa nova casa.
      
      A minha primeira professora tinha beleza, elegância e serenidade.
      
      Era uma estrela de primeira grandeza e seu brilho nos iluminou.
      
      Do meu primeiro dia de aula ficou aquele jardim de miosótis e o piso de mosaicos, flores e chão de minha infância, desenho que levou a segurança do lar para a escola. Aula inicial coroada de êxito pela sensibilidade e sabedoria de Dona Terezinha Pinheiro.

 

Publicada em 2007, na Coletânea: Poesia e Prosa na terra da opala - Fundação Municipal de Cultura de Pedro II/PI