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Goiabeira, esse era o nome do sítio do meu pai

Lucia Ana Publicado em 01.08.2008

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      Lá se plantava  cana-de-açucar.

      A moagem era esperada o ano inteiro.

      Quando chegava o mês de julho e o engenho de rapadura começava a moer, o Goiabeira virava festa.

      Um jeep willys, a traseira cheia de crianças e papai pegando a estrada. Quando  nos aproximávamos tudo era verde. A  plantação de cana a perder de vista. O vento  balançava as  folhas fazendo um barulho enorme. Era o canavial saudando a nossa chegada. O cheiro forte do  mel quente  dominava a redondeza.

      A casa da moagem era um espetáculo. Quem viveu esses momentos certamente não esqueceu. Um par de bois presos por uma canga, peça de madeira que prende os bois pelo pescoço, caminhavam em círculo fazendo o engenho ranger. Um homem fazia o mesmo percurso com um relho na mão,  açoitando os animais. A moenda não podia parar. Enquanto outros homens alimentavam o engenho com cana,  do outro lado caia a garapa. Caldo verde que era levado para grandes tachos em cima do fogão em labaredas.

      O caldo era mexido com colheres de pau de cabo longo. Movimento pesado, por isso mesmo só os homens trabalhavam ali. O calor era muito forte. O suor pingava dos rostos daqueles que estavam na labuta.

      Depois de algum tempo, o caldo começava a engrossar. E quando aquele caldo virava mel e desgrudava dos enormes vasos de metal, era o ponto de rapadura. Mel que era derramado em formas de madeira e em gamelas, vasilhas de madeira, por homens corpulentos. Dentro das gamelas colocávamos pedaços de  cana raspadas que se revestiam de mel de engenho. Cada criança saia com seu gomo coberto pelo melado e à medida que esfriava, puxávamos. Puxava-se, puxava-se, passava-se as mãos na goma e continuávamos puxando até virar o alfenim. Quando o alfenim ainda estava mole, nossa imaginação cuidava do resto. Fazíamos flores, animais, quadrados, bolas e balas . Colocávamos em folhas de bananeira e ali repousavam até ''morrer''. Tacos alvacentos  que adocicavam a nossa vida.

      A garapa de cana, o conhecido caldo de cana, era o suco preferido. Com o pãozinho que  trazíamos da cidade era uma merenda perfeita. E enquanto nos alimentávamos com aquelas guloseimas, víamos os montes de bagaço de cana  jogados nos lombos dos animais para transformarem-se em forragem nos currais. As folhas verdes, ainda com seiva, eram trituradas ali mesmo e colocadas em cocheiras de madeiras. Os animais também tinham sua alimentação garantida.

      A moagem durava uma semana, e dependendo da produção, até duas. Nesse período podíamos apreciar a rapadura, a batida, uma espécie de rapadura mole temperada, o alfenim, a garapa e o  mel. Delícias da nossa fábrica do interior.

      A volta eram crianças adormecidas. Grudentas de mel. Cabelos perfumados pela  fumaça doce e corpos impregnados de doçura que acredito, carregamos pelo resto da vida.

      Ficaram das moagens  os doces momentos da vida em família. Tempos de doçura experimentados na infância. 

      O sítio foi vendido. E nunca voltei lá. Não sei se o engenho ainda existe, mas nas minhas lembranças o engenho da goiabeira, nunca perdeu o seu encanto. Ele será para sempre um engenho de doces.