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A barbárie contra-ataca

Erlon Paschoal Publicado em 06.01.2009

Na década de 90, a diretora de teatro francesa, fundadora do Théâtre du Soleil, Ariane Mnouchkine, montou um espetáculo sobre Sarajevo, cidade símbolo da barbárie e da carnificina pós-moderna, e fez na ocasião uma greve de fome em solidariedade.

      Hoje vemos estarrecidos nos noticiários os bombardeios perpetrados pelos israelenses em sua sanha assassina pelo extermínio do povo palestino, escolhendo a data mais importante do calendário cristão, o nascimento de Jesus justamente naquela região, para um ataque contra todos os valores humanos. Seria possível imaginar um espetáculo teatral capaz de abordar esse outro espaço-símbolo da barbárie pós-moderna em nossos dias, vista por quase todos os grandes líderes mundiais com complacência e até mesmo descaso?

      Por vezes me pergunto: quem é mais assassino? Aquele que amarra explosivos ao corpo e vai para os ares junto com eles, ou aquele que de um avião, de um tanque ou de um navio, lança uma bomba teleguiada a quilômetros de distância?

      Assistimos impotentes a um ataque insano perpetrado pelos israelenses, com o aval e apoio tecnológico dos norte-americanos, aos territórios palestinos na Faixa de Gaza, em pleno Natal. Usando como pretexto o lançamento de alguns foguetes pelo Hamas, assassinaram centenas de cidadãos, puseram abaixo inúmeras edificações e lançaram bombas em dezenas de alvos civis. Os feridos e mutilados nos bombardeios não passam de pequenos efeitos colaterais, comuns neste tipo de operação, segundo declarações oficiais dos verdugos. E não pretendem parar por aí.

      Por uma dessas tragédias irônicas da história humana o Holocausto acompanha de perto o povo judeu: numa época foi vítima, agora transforma-se num carrasco implacável. Freud certa vez escreveu que o torturado quando assume o papel inverso torna-se ainda mais frio e cruel.


      O descaso pela vida do muçulmano propagado e inculcado pela mídia norte-americana nos corações e mentes ocidentais, significa um retrocesso no processo civilizatório e um golpe fatal na aproximação necessária entre culturas distintas num mundo que tende cada vez mais a se globalizar e a interagir.

      Susan Sontag, que encenou Esperando Godot na Sarajevo sitiada, afirmou na ocasião: "Muitas outras guerras como essa vão ocorrer. Guerras que parecem guerras civis, mas não são. Essa guerra foi mais uma agressão contra a humanidade".

      Não se trata portanto de sermos a favor ou contra o judeu, a favor ou contra o muçulmano, a favor ou contra o norte-americano... Trata-se de sermos a favor da vida, do respeito mútuo e da dignidade humana.

      No fundo, sempre queremos acreditar que o bom senso algum dia prevaleça nos homens públicos e influenciem suas decisões. Equívoco ou não, é preciso no mínimo começar a afirmar categoricamente que isso é um crime contra a humanidade, que não equivale a um “desastre natural” e menos ainda que se trata de  algo “inevitável”, herdado dos antepassados. Talvez assim, possamos formar a nossa própria opinião e nos posicionarmos frente aos fatos com mais independência e sensibilidade.

      O momento atual exige cada vez mais de todos os indivíduos sensatos e íntegros posições mais firmes contra a ganância desmedida e o extermínio de povos e culturas, antes que seja tarde demais.