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De carona (1)

Andocides Bezerra Publicado em 04.10.2005

      Quando somos jovens temos disposição para uma infinidade de aventuras. Eu tive as minhas, sempre mediadas pelo princípio de não prejudicar ninguém além de mim mesmo, é claro.

      Lembro-me que certa vez, por conta de uma reunião na cidade de Chapecó, oeste catarinense, eu e um outro amigo, Danilo, ambos militantes da União da Juventude Socialista, saímos de carona, atravessando todo o estado de Santa Catarina.

      Não sei exatamente se éramos imprescindíveis nesta reunião, figuras indispensáveis, pessoas que, sem elas nada aconteceria. Provavelmente não fôssemos, mas nossa vontade de viajar, contribuir, de se aventurar era maior do que a de ficar em Florianópolis enquanto todos iriam se encontrar no interior e beber muuuiiitttoo.

      Fomos com a cara e a coragem – esta expressão nunca foi tão verdadeira -, pegamos uma carona em um caminhão do jornal Diário Catarinense por volta da meia-noite. Abancamos-nos do lado do motorista e fomos conversando – por volta de uns dez minutos, logo depois dormimos profundamente e o motorista, que dava carona para conversar e não dormir durante a viajem, ficou a ver navios. Por volta das quatro horas da manhã, eu que sonhava com as meninas que encontraria em Chapecó, acordo com os empurrões do motorista. Acordou-nos abruptamente e informou-nos que tínhamos chegado. Era a primeira vez que eu ia a Chapecó, então, quando eu vi todo aquele mato, comentei: que cidade feia! O Danilo impaciente, já discutia com o motorista. Para entender: o cara, não sei se indignado com as companhias, falou que só iria até àquele ponto e que dali por diante era por nossa conta. O problema é que não tínhamos dinheiro para pagar conta nenhuma. 

      Bom, como já dizia Chico Buarque: festa acabada músicos a pé! Estávamos em um ponto em que voltar era coisa de doido e continuar era loucura. Considerávamos-nos loucos e por isso nos pusemos a caminhar em direção ao oeste. O dinheiro que contávamos em nossos bolsos deu para comprar um pão e um guaraná na hora do almoço. Pegamos carona em carro pequeno, caminhão de mudança, caminhão com carregamento de galinha – estávamos com tanta fome que as galinhas pareciam rodar em um espeto. Pegamos algumas caronas, mas no geral andamos, andamos e andamos muito e para complicar ainda mais, cada um levava uma mochila bem pesada. Não era mesmo nossa especialidade pegar carona, em vez de ficarmos parados com uma plaqueta na mão, nós íamos caminhando e dificultando mais o entendimento de quem passava de carro. Estávamos precisando de carona ou só estávamos caminhando?

      O dia se passou, a noite começava a dar seus primeiros sinais, minha barriga respondia prontamente. Era uma verdadeira sinfonia dos desesperados. A barriga gemia, minhas pernas tremiam e eu resmungava diante da impossibilidade.

      As primeiras luzes começavam a acender quando passamos por Xanxerê, não estávamos tão longe para quem ia de carro. Porém, para quem ia praticamente a pé, era ainda uma longa caminhada.

      Foi assim que, sem comer e nem beber nada, as mochilas foram ficando cada vez mais pesadas. Danilo, que, tanto quanto eu, era um magricelo – aliás, eu era um verdadeiro graveto ambulante, tanto que quem me olhava de lado, achava que eu já havia ido embora. -, ia a frente com sua mochila e eu atrás. Parecíamos dois retirantes, uma verdadeira imagem extraída do livro Vidas Secas de Graciliano Ramos, só faltava a baleia. Aliás, se a baleia estivesse nos acompanhando, nós a teríamos comido já no meio da jornada. Como eu ia dizendo, estávamos entrando em Xanxerê, eu atrás e o Danilo na frente, olhava numa única direção, sempre para o horizonte, procurava não me mover muito, além das pernas nem os braços eu mexia para economizar o máximo de energia possível. Via a cabeça do meu amigo quando de repente tudo sumiu, só encontrei mato pela frente, desesperado comecei a procurar o indivíduo que estava estirado no chão. Mochila para um lado e andarilho para o outro. Corri para ver se meu companheiro estava bem. Estava, tinha sido só uma fraqueza. Restabelecido, dividimos o peso da mochila e continuamos. Já era madrugada alta quando o desespero tomou conta destes dois jovens. Num posto de polícia paramos. Solicitamos ajuda e o máximo que os guardas fizeram foi nos autorizar a pedir carona diante do posto. Já se contava meia hora e nada. Morto de fome, de sono e de cansaço, sujo e fedendo, me atirei em frente de um caminhão que passava devagar – o motorista deve ter parado para não sujar o pára-choque – e pedi por amor de deus, quase chorando, que nos levasse a Chapecó. 

      Com amor a deus ou não o chofer do caminhão atendeu minhas preces e, quando entramos na cidade e vimos todas aquelas luzes e os brilhos que só as cidades têm, foi como se acordássemos de um verdadeiro pesadelo.