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Eu não sei dizer não

Andocides Bezerra Publicado em 22.11.2003

      Eu sou uma destas pessoas que, no bom sentido, não sabe dizer não. Por conta disto, já me peguei em diversos lugares desagradáveis como: terreiros de umbanda, culto evangélico, rina de galo, despachos em encruzilhada com uma amiga que não conseguia viver sem seu amor, e mais uma infinidade de outras coisas que, no meio da confusão, eu sempre me perguntava: mais que diabos estou fazendo aqui?!

      Um dia, minha mulher foi quem me salvou de uma destas. Estava em casa me vestindo quando ela perguntou: para onde você vai?

      - Vou para o jogo do Corinthians.

      - Mas você não é palmeirense?

      - Sou. Mas é que o pessoal me convidou, achei ruim dizer não. E também vai todo mundo.

      É claro que minha mulher ficou apreensiva. O que é que um palmeirense doente, a esta altura mais doente que palmeirense, vai fazer num jogo do corinthians? É óbvio que tem mulher nesta história. Pensou ela enquanto me perguntava:

      - E quem vai? Batia o pé no chão para dar um ar mais autoritário.

      - Bom! Vai o Carlão, o Euzébio, Renata... 

      - Renata! Falou de supetão.

      - O Renata! Os pais queriam uma menina. Vai entender a cabeça destes antigos. Mas o cara é homem, sem tirar nem por.

      - Huuum! Quem mais?

      - E mais um monte de outros corinthianos. Só homem, eu acho.

      - Você não vai. Pode ligar para eles e dizer que você não vai.

      Tanto ela falou que acabei criando coragem, liguei para o pessoal e falei: Amor, diz você que eu não posso ir.

      Numa outra ocasião, eu andava pela Líbero Badaró, virando para passar sobre o Viaduto do Chá quando encontrei um amigo que já não via há muito tempo. A primeira coisa que reparei neste meu amigo claro, foi seu novo penteado, ou a falta dele. O cara tinha raspado toda a cabeça e, no meio da nuca, deixado um montinho de cabelo que ele trazia amarrado na forma de um pequeno coque. Trajava uma roupa cor salmão e da cintura para baixo uma longa e esvoaçante saia.

      Eu já tinha visto homens vestidos de mulher, inclusive com um coquesinho daqueles, não tenho preconceito, apesar de achar que homem que não gosta de mulher, tem mais é que tomar no..., deixa pra lá. De qualquer forma este era meu amigo. Fomos a várias baladas juntos, não saímos dos sambas paulistanos e agora, vejam só, vestindo saia. E se não bastasse a saia, estava falando manso, devagar. Bom o negócio é pensar pelo lado positivo, perdi um amigo, mas ganhei uma amiga.

      - E aí Rubão, tudo bem? O que tem feito?

      - Oi Fernandinho. Não sou mais Rubão, agora sou Amara-Purusha.

      E rapa! Pensei comigo. O cara tá jogando em outro time mesmo. Já trocou até de nome.

      - Amara-Purusha é? E como você prefere ser chamado? Amara?

      - Pode ser seu bobo! Eu encontrei a luz, Fê. Sou uma nova pessoa.

      - Tô vendo!

      - Renasci. Sou outro homem. O grande Swami Prabhupada me salvou, me transformou.

      Deve ser o maridão dele. – Pensei comigo mesmo.

      - Certo. E ele te pegou no fundo.

      - Pegou. Pegou mesmo.

      - Ôh! Rubão. Quero dizer Amara. Sou teu amigo, por isto vou ser direto. Tu virou bicha?!

      - Claro que não Fernandinho.

      - Não!? E este coquesinho? Este nome de mulher? Esta saia?

      - Calma Ferandinho. Eu apenas me transformei, sou um Hare Krishna. Isto não é saia é uma roupa santa e o nome não é de mulher, significa o Ser Imortal. Você sabe o que é um hare, não sabe?

      - Claro que sei. Eu sou um quase hari. Vou ao hopi hari quase todo final de mês, só que nunca vi ninguém vestido assim lá.

      - Ôh Fernandinho! Hare quer dizer hare krishna. É uma associação mundial de devotos de Krishna, que significa Deus segundo o Bhagavad-gita. Krishna é um nome em sânscrito, que quer dizer "O Todo atrativo". Entendeu!?

      - Não só entendi, como já sabia, como já participei. Tive que dizer isto, depois desta humilhação.

      - Ah que ótimo. Já participou então. Fico feliz. Sendo assim você poderia vir comigo, estou indo para o templo, vamos?

      Ai meu deus o que foi que eu fiz, joguei contra eu mesmo, nunca tive em tal lugar e agora não saberei dizer não. Tenho que me esforçar, não posso entrar nesta arrombada, ninguém merece.

      - E então? Vamos?

      - Pois é Amanda, quer dizer Amara, acho que não...

      - Não o quê?! Não vai?! Claro que vai, afinal faz tanto tempo que não nos vemos.

      - É realmente faz um tempão.

      - Então?

      - Que ônibus agente pega?!