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Ironias da guerra

Valdivino Braz Publicado em 22.10.2010

1.
Tomou, então, Jesus,
os dois peixinhos
e distribuiu-os
a tantos quantos queriam.


      Querido pai, querida mãe. Tudo bem por aqui. A guerra está uma beleza! Esta tecnologia bélica é mesmo surpreendente. Dá gosto ver os estragos que faz. E tome goma de mascar com cocaína, e baseados pra pitar, que ninguém é de ferro neste inferno. Quanto a mim, não se preocupem, estou legal. Uma explosão me arrancou as pernas e os testículos. Vão me mandar de volta pra casa. Acham que já dei uma boa contribuição em prol do nosso país. Disseram que sou um patriota supimpa! Só lamento minha cabeça ter sido arrancada do corpo, numa explosão. Serei despachado num saco de dormir. Ah, não vejo a hora de rever vocês, embora os estilhaços do petardo tenham me deixado cego. Ainda bem que na hora eu estava sem o meu Ray-Ban, senão teria perdido os óculos também. E só não vou assinar esta carta porque perdi um dos braços na batalha; o outro sofreu gangrena e teve de ser amputado aqui na enfermaria do front. Agora não vou mais pensar nestas coisas, pois nem sei aonde foram parar meus miolos. Mas, puta que pariu, estou muito feliz com o que sobrou de mim!


2.
Quando todos se saciaram,
disse Jesus a seus discípulos:
Recolhei os pedaços que sobraram,
para que nada se perca.
Guardai-os para os cães
que virão depois de vós.




Valdivino Braz é jornalista, escritor e poeta. Secretário-geral reeleito da União Brasileira de Escritores – Seção de Goiás (UBE-GO), em Goiânia. Publicou 14 livros, seis deles premiados em concursos. Com “A trompa de Falópio — Rapsódia de Homero Canhoto” (poemas) foi vencedor do Prêmio Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte/1992. Dois de seus livros publicados são de contos. Acaba de lançar o romance “O Gado de Deus”, que, com outro título, recebeu menção honrosa no Concurso Nacional de Romance do Paraná/1993. Entre chocante, hilária, herética, escatológica e contundente, a obra tem o subtítulo de “Livro do ressentimento” e prima pelo cunho sociopolítico. Uma paródia e sátira ao golpe militar de 64, à história pátria e ao caráter macunaímico da sociedade brasileira. Obra típica de um professo anarcopensador e franco-atirador verbal, sem dourar a pílula de quem quer que seja. Braz recebeu, em 1996, o Troféu Tiokô de Poesia, da UBE-GO. Em 2004, foi agraciado com o Troféu Goyazes de Poesia Leodegária de Jesus, da Academia Goiana de Letras (AGL).