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O BOOM DA SOJA

Valdivino Braz Publicado em 04.11.2010

Escrito e publicado em 1994, por conta duma paisagem desoladora que então vi de perto, tendo saído de Goiânia a caminho de Itiquira, no Mato Grosso. Com ligeiras alterações, aqui republico o texto, a propósito do poema de Adalberto Monteiro, “Ferro e Soja”

O que era da terra,
das fomes de bichos e homens,
agora é da gula da fera de ferro.
A goela de léguas e léguas engolindo tudo,
a língua do sol ardendo na terra descarnada
para o churrasco do diabo.

Tudo arrasado,
quebrado o equilíbrio
natural das coisas,
o ar da vida.
Milhares e milhares de hectares vazios,
desolados.

Onde os milharais,
os pomares, o arroz, os pássaros,
os bois, o ouro do mel?
Que bicho os destruiu?

Agora uma arena de ganâncias,
uma guerra de interesses sem freios,
cobra engolindo cobra.

Sem tréguas,
a insana refrega,
em que se comem cruas as crias
do ferro antropofágico.
Famigeradas ferragens
a tudo devastam e devoram,
rangendo as mandíbulas do dinheiro.

A semeadura da fartura,
as supersafras da fome,
os carunchos do futuro tecnotrágico.

Nenhuma viv´alma.
Som nenhum.
Só a terra nua e o sol.
Sombra alguma de vegetal,
salvo de esparsos eucaliptos
junto às sinistras instalações,
nefandos galpões,
ninhos de máquinas,
frios monstrengos do desenfreio.

E tome soja.
O boom da soja.
E o bunda-suja.
Os cus de barbicacho
com a praga de gafanhotos,
sotonhafag, nhotosgafa,
gatosfanho e bostoutras.

A terra estuprada,
fundas fendas, feridas
que são crateras do tumor maligno.
Signo de câncer,
a doença imoral das supersafras.

Furibundas fazendas pró-rendas,
a tara do lucro às toneladas,
e a má distribuição de renda.
Os governos, os banqueiros,
financiando a barafunda,
subalternos embolsando o suborno,
o ladrão dolarizando a corrupção.

E agora só a terra-terra,
os arais da escassez,
o jogo da especulação.
Ou então soja,
tipo exportação.
Só soja.
Sojeira pura.





Valdivino Braz é jornalista, escritor e poeta. Secretário-geral reeleito da União Brasileira de Escritores – Seção de Goiás (UBE-GO), em Goiânia. Publicou 14 livros, seis deles premiados em concursos. Com “A trompa de Falópio — Rapsódia de Homero Canhoto” (poemas) foi vencedor do Prêmio Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte/1992. Dois de seus livros publicados são de contos. Acaba de lançar o romance “O Gado de Deus”, que, com outro título, recebeu menção honrosa no Concurso Nacional de Romance do Paraná/1993. Entre chocante, hilária, herética, escatológica e contundente, a obra tem o subtítulo de “Livro do ressentimento” e prima pelo cunho sociopolítico. Uma paródia e sátira ao golpe militar de 64, à história pátria e ao caráter macunaímico da sociedade brasileira. Obra típica de um professo anarcopensador e franco-atirador verbal, sem dourar a pílula de quem quer que seja. Braz recebeu, em 1996, o Troféu Tiokô de Poesia, da UBE-GO. Em 2004, foi agraciado com o Troféu Goyazes de Poesia Leodegária de Jesus, da Academia Goiana de Letras (AGL).