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Carta de uma Leitora

Ernest Hemingway Publicado em 17.02.2011

Sentou-se à mesa do quarto, com o jornal aberto à frente, e parando apenas para olhar pela janela a neve a cair e a derreter-se no telhado ao cair. Escreveu esta carta, escreveu-a sem parar, sem necessidade de riscar ou reescrever qualquer coisa. Roanoke, Virgínia 6 de fevereiro de 1933

Prezado Doutor

      Escrevo para lhe pedir um conselho muito importante: Tenho uma decisão a tomar e não sei em quem posso confiar e não ouso perguntar a meus pais. Por isso, escrevo-lhe apenas porque, não tendo de enfrentá-lo cara a cara, posso confiar no senhor. A situação é esta: Casei-me com um rapaz que estava no exército americano em 1929 e, nesse mesmo ano, ele foi mandado para Xangai, China – lá ficou três anos – e depois voltou para casa, dando baixa no exército poucos meses atrás, e foi para a casa da mãe dele em Helena, Arkansas. Escreveu-me que eu fosse ter com ele; fui e descobri que ele estava tomando uma série de injeções e, naturalmente pergunto, descobrindo que ele está sendo tratado por causa de uma doença cujo nome não sei escrever direito, mas que parece ser “sífilus”. O senhor sabe o que eu quero dizer; Agora quero que me diga se posso viver com ele outra vez; não tive nenhum contato mais íntimo com ele desde que voltou da China. Ele me assegurou que estará OK depois que terminar o tratamento médico. O senhor acha que está certo? Muitas vezes ouvi meu pai dizer que era melhor morrer do que ter essa doença. Creio em meu Pai, mas desejo mais ainda crer em meu Marido. Por favor, por favor, diga-me o que devo fazer; tenho uma filha que nasceu enquanto o pai estava na China.

      Agradecendo antecipadamente e confiando inteiramente em seu conselho, firmo-me, e assinou seu nome.

      Talvez ele possa me dizer o que devo fazer, disse ela de si para si. Talvez possa me dizer. Pelo retrato do jornal, parece saber. Parece mesmo inteligente. Todos os dias diz a alguém o que deve fazer. Deve saber. Quero fazer o que é direito. Mas faz tanto tempo. Muito tempo. E passou mesmo muito tempo. Meu Deus, quanto tempo. Ele tinha de ir para onde era mandado, não sei, mas não sei por que tinha de pegar essa doença. Oh, meu Deus, como desejo que não a tivesse pegado. Não importa o que tenha feito para pegá-la. Mas, meu Deus, como desejo que não tivesse pegado nada. Não vejo porque tinha de pegar coisa assim. Não sei o que fazer. Como peço a Deus que ele não tivesse doença alguma. Não sei porque ele teve de pegar essa doença.


Contos / Ernest Hemingway – Tradução de A. Veiga Fialho – Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1986, pág. 148.