[email protected]

A melancolia do crepúsculo

Fernando Jorge Publicado em 08.12.2011


Vida e Poesia de Olavo Bilac – Capítulo XXIII A melancolia do crepúsculo

(Fernando Jorge)


“... O primeiro encontro de Olavo Bilac com Amélia de Oliveira, após o rompimento do noivado, ocorreu em 1910, na casa do Professor Hemetério dos Santos.
Alberto Oliveira e Amélia foram à residência de Hemetério, a fim de cumprimentá-lo pelo seu aniversário.
Quando chegaram à casa do professor negro, viram que Bilac se achava presente. Ele correu para abraçar Alberto. E avistando Amélia, ficou surpreso. No entanto, emocionado, sem proferir uma palavra, estendeu a mão à criatura que havia sido maior sonho de sua mocidade. Amélia, também comovida, retribuiu o cumprimento.
Poucos dias depois, Olavo descreveu, num soneto, o casual encontro com a mulher amada:
“Depois de tantos anos, frente a frente,
Um encontro... O fantasma do meu sonho!
E, de cabelos brancos, mudamente
Quedamos frios, num olhar tristonho.

Velhos!... Mas, quando, ansioso, de repente,
Nas suas mãos as minhas palmas ponho,
Ressurge a nossa primavera ardente,
Na terra em bênçãos, sob um sol risonho:

Felizes, num prestígios, estremecemos;
Deliramos, na luz que nos invade
Dos redivivos êxtases supremos;

E fulgimos, volvendo à mocidade,
Aureolados dos beijos que tivemos,
No divino milagre da saudade.”

As lembranças do passado aspiraram a Bilac o sonêto “Remorso”, cheio de pungente sinceridade:
“As vezes, uma dor me desespera...
Nestas ânsias e dúvidas em que ando,
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.

Versos e amores sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosão sincera...
Oh!mais cem vidas! com que ardor quisera
Mais viver, mais pensar e amar cantando!

Sinto o que esperdicei na juventude,
Choro, neste começo de velhice,
Mártir da hipocrisia ou da virtude,

Os beijos que não tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude,
E por pudor os versos que não disse!”

Os momentos de prazer são efêmeros como a florescência das rosas. É preciso, portanto,  que vivam em nossa memória, à semelhança de um eco que não se extingue, à maneira de um perene raio de luar refletido na dimensão infinita da eternidade.
A vida ensinou isto a Bilac, mas ele, sem as ilusões da juventude, já não podia aproveitar a lição.”

Vida e Obra de Olavo Bilac
Fernando Jorge
Edições MM, 2 ed. – pág. 327 e 328