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Ante a juventude que jaz, choremos!

Maria Aparecida Dellinghausen Motta Publicado em 06.08.2013

Uma homenagem comovente e lírica à juventude e à alegria, numa noite sinistra em Santa Maria, em que incidentes letais tornaram a madrugada triste para pais e mães de todos os lugares. Um incêndio no fim de janeiro deste ano, que levou 242 vidas que confraternizavam numa pista de dança.

Para não nos esquecermos de quem deveríamos cuidar

 

Era serena a noite
sob o sereno e a tênue
prata d’Alba.

 

Era sereno o espírito da juventude
confiante nas mãos alheias
enquanto embalava os sonhos
e o idílio
que não se completariam,
suspensos no vazio voraz
das chamas.

 

Tão jovens! – meninos apenas!...
que sob a noite se entregavam
às juras e aos risos
enquanto a brisa se fazia lá fora.

 

E esperavam o futuro
que guardavam nos livros
e nos bancos da universidade.

 

Os livros fecharam em casa
sobre as mesas e as estantes
e seguiram para a noite
com a serenidade
de quem se descuida de si mesmo
porque está sob os cuidados
de mãos alheias.

 

Essas mãos, porém, não ofereceram
a recíproca confiança:
como poderiam ter-se esquecido
do zelo e da atenção permanentes?!

 

O descaso e a negligência
armaram o golpe,
fatal e definitivo,
aos desavisados
que só tinham vida à sua frente.

 

Tombaram tantos, meu Deus!
Sucumbiram dentro da luva negra
da asfixia – o novo holocausto
impiedoso para com aquelas
vidas tenras
que se entregavam à inocência
de um idílio promissor.

 

O que foi feito de suas vidas?!
Sobrou o eco de vozes atônitas
chamando do outro lado da linha
–  Filhinho! Filhinha! ... –
esperando a resposta
de um riso límpido
de ventura e inocência.

 

E só o silêncio de sombras
baixava, empilhando-se
do outro lado da vida.
Choremos, então, porque
nos resta chorar
essas lágrimas amargas.
Mas é preciso levantar
o brado clamando
pelo rigor diante da negligência
e da irresponsabilidade!

 

O descaso, neste caso,
preparou a terrível armadilha
aos corações desavisados,
tão próprio dos inocentes
e das vítimas,
que confiavam na noite feliz
de uma alegria vã.

 

Não mais o riso
se fará presente.
Só o desespero de quem desfalece
ao som da música
e ao torpor negro de chamas ardendo.

 

Traziam ainda nos olhos
a umidade da infância,
meu Deus!
Tão crianças eram na maioria!
Como não chorar
ante o desespero que
agora é só o silêncio
de quem confiava
em outrem e em suas forças?

 

A tragédia foi ilícita
naqueles momentos
que deveriam ser de felicidade.

 

A tragédia da trama insensata,
surda, estendeu-se
sem compaixão
sobre os que ali tombaram
sem aviso,
inocentes, sem saber que algozes,
(ainda que involuntários)
pesariam a mão sobre eles!

 

O horror da noite,
que seria promissora,
deitou-se impassível
com a força da impiedade
cortando-lhes o sopro
na garganta
derrubando o direito
de apostar no futuro.

 

Indefesos, sucumbiram
na teia mortal
os selecionados pela roleta-russa
do carbono escuro
que se instalara na pista de dança.

 

E quem poderá dormir,
de hoje em diante,
sob a mão que treme
apalpando o sono que não se concilia
à sombra obscura dos corpos tenros?

 

Porque aqueles que sonharam,
sob o manto da juventude,
só pediam o palpitar da vida
naquela noite.

 

Naquela noite devorada
pelo horror inclemente,
descompassada sob os ponteiros da tragédia,
que em seguida daria lugar à madrugada
tão cúmplice da dor...

 

São Sepé, abril de 2013.
Maria Aparecida Dellinghausen Motta,
escritora e ex-aluna da UFSM.