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Os Corvos

Arthur Rimbaud Publicado em 11.08.2015

Os corvos de Rimbaud nos despertam para a presença da fria face da morte, do mau presságio. Se observado paralelamente ao Campo de Trigo, de Van Gogh, com seus corvos, essas aves das trevas, que se acercam da carne solitária, vazia, o poema preenche de significantes literais a angústia, a solidão e a impotência em um campo de céus sombrios, de mares de trigo cujas ondas não permitem uma travessia, uma saída. Aí reina o silêncio, além de uma imensidão muda e incerta, constatada pelas pinceladas fortes, rápidas e aparentemente aleatórias, imprimindo a sensação de caos...

 

Senhor, quando os campos são frios
E nos povoados desnudos
Os longos ângelus são mudos...
Sobre os arvoredos vazios
Fazei descer dos céus preciosos
Os caros corvos deliciosos.

 

Hoste estranha de gritos secos,
Ventos frios varrem vossos ninhos!
Vós, ao longo dos rios maninhos,
Sobre os calvários e seus becos,
Sobre as fossas, sobre os canais,
Dispersais-vos e ali restais.

 

Aos milhares, nos campos ermos,
Onde há mortos recém-sepultos,
Girai, no inverno, vossos vultos
Para cada um de nós vos vermos,
Sede a consciência que nos leva,
Ó funerais aves da treva!

 

Mais, saints du ciel, em haut du chêne,
Mât perdu dans le soir charmé,
Laissez les fauvettes de mai
Pour ceux qu’au fond du bois enchaîne,
Dons I’herbe d’où I’on ne peut fuir,
La défaite sans avenir.

 

Livro: RIMBAUD LIVRE
Autor: Rimbaud, Arthur.
Tradução: Augusto de Campos
Editora: Perspectiva