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Vital Nolasco lança livro Vale a Pena Lutar, dia 30, em São Paulo

Redação Publicado em 17.06.2016

Lançamento será dia 30 de junho, às 19h, no auditório do PCdoB, à Rua Rego Freitas, 192, República, centro de São Paulo.

Leia texto de Luiz Manfredini, publicado originalmente no Vermelho, sobre a biografia de Vital Nolasco:

Memórias da saga comunista 
Luiz Manfredini *

Soube que o biógrafo e historiador Osvaldo Bertolino está concluindo livro sobre a vida e a luta do dirigente comunista Vital Nolasco. 

Aos futuros leitores dessa história, que certamente se imporá pelo indiscutível valor da trajetória do biografado e também pelo inequívoco talento do escritor, adianto trechos do perfil de Vital que inseri no livro “Vida, veredas: paixão”, produzido para a Fundação Maurício Grabois, em 2012. Na época que o entrevistei, Vital exercia a função de Secretário de Finanças do Comitê Central do PCdoB.

Marcas da vida, marcas da tortura 

Em sua pequena sala de Secretário de Finanças do Comitê Central do PCdoB, Vital Nolasco ergue a camisa e mostra as cicatrizes de sua estada de 40 dias no Doi-Codi paulista, em 1974. Lanhos que descem, em paralelas, pelas costas, resistentes ao tempo. No cardápio das torturas, além das chicotadas que o marcaram para sempre, o trivial das salas de suplício da ditadura: pau-de-arara, choque elétrico, afogamento, tapas na orelha, bofetões, chutes. Em dez dias nas mãos dos torturadores, Vital perdeu os sentidos por duas vezes e foi reanimado por médico de plantão. Maria, a irmã, e o cunhado Luiz Tenderine, ex-padre italiano, foram levados à delegacia e torturados em sua frente. Mas da boca de Vital, os policiais não ouviram nada.

Com sua prisão denunciada na Europa pela congregação a que pertencia Tenderine, a repressão recuou. Antes de soltá-lo, porém, vieram as propostas. Primeiro, um exílio na Itália. Em seguida, um emprego na Petrobrás. Por fim, uma casa em Belo Horizonte. Todas recusadas, até porque, em troca, Vital deveria assinar declaração de que não havia sido torturado. E não assinou. Como resposta, obteve um desabafo do delegado: “Vocês ainda vão ser vitoriosos porque são uns loucos!”. Solto, foi para Belo Horizonte encontrar a mulher, mas logo voltou para São Paulo, empregou-se numa indústria química e retomou a atividade política interrompida pela prisão.

Eustáquio Vital Nolasco foi um trabalhador precoce. Segundo dos dez filhos do padeiro Orlando e da lavadeira Diva, estava com dez anos de idade quando começou a buscar leite para os vizinhos do Jardim América, vila operária isolada nas cercanias de Belo Horizonte, onde morava com a família. Todas as manhãs caminhava dez quilômetros até a Gameleira e voltava com o pequeno tambor de cinco litros sobre os ombros. Aos 12 anos vendia no bairro legumes e verduras comprados no mercado central e também o esterco que apanhava nas redondezas, curtia e secava. À noite, estudava. Um tio o iniciou nas artes da serralheria e, logo após concluir o curso comercial e servir o exército, empregou-se numa metalúrgica e ingressou na Juventude Operária Católica (JOC).
A JOC reunia jovens trabalhadores a partir de núcleos em bairros, educando-os numa perspectiva de luta contra a ditadura e pela justiça social. Interessado e sagaz, Vital progrediu na organização e, em 1968, já integrava na direção nacional. Nesse ano iniciou seus contatos com a AP, ficando na condição de ampliação, ou seja, num estágio anterior à militância propriamente dita. E, assim, participou do comando das greves de abril daquele ano, que mobilizaram 16 mil dos 21 mil operários de Belo Horizonte e Contagem, incluindo a ocupação da Mannesmann, e de outubro, ainda mais extensas.

A forte repressão que se seguiu às greves de outubro, quando o País já se encaminhava para o recrudescimento da ditadura (o AI-5 seria decretado em dezembro), obrigou Vital a esconder-se. Dezenas de lideranças presas, centenas de operários demitidos. Clandestino em Belo Horizonte, vivendo da ajuda de companheiros, em junho de 1969 Vital se transferiu para São Paulo. A vida só melhorou um pouco quando começou a trabalhar numa fábrica de sola de sapato no Jabaquara. Passou, depois, por várias outras empresas, sempre ativo nos movimentos reivindicatórios. No Senai, tornou-se eletricista instalador. Instalava motores. Em 1972 ainda era ampliação da AP, mas já mantinha contato com o PCdoB. Casado com Ester desde 1971, sua casa no Rio Pequeno foi muitas vezes palco de reuniões de dirigentes da AP. Por ali passaram, entre outros, Haroldo Lima, Aldo Arantes e Renato Rabelo.

A essa altura Vital já participava do Movimento Contra a Carestia, que ainda se chamava Movimento do Custo de Vida, liderado por Aurélio Perez, que conheceu quando morou numa paróquia da Vila Leonor. No início de 1974 ambos foram presos.

Ao deixar a prisão Vital já militava no PCdoB, mas precisou de tempo para refazer o contato. Respondendo a processo, desenvolveu atividade sindical cuidadosa na categoria dos químicos, à qual passou a pertencer. Acabou absolvido, mas pouco tempo depois - no dia em que completava 30 anos, 16 de dezembro de 1976 - a Chacina da Lapa desfez as ligações partidárias que havia costurado após deixar a prisão. Tudo voltou à estaca zero. Sem deixar o movimento sindical, mas já no ramo metalúrgico, somente dois anos depois Vital reencontrou o partido. Em 1980 estava numa empresa de componentes eletrônicos em Itapecerica da Serra, ligada ao Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco. Ali passou a atuar. Foi então que ocorreu a batalha de São Bernardo do Campo.

No dia 1º de maio de 1980, em meio à greve dos metalúrgicos do ABC, Vital estava à frente da caravana de cinco ônibus de trabalhadores de Osasco que partiu para São Bernardo, onde as forças de oposição à ditadura e solidárias com os metalúrgicos parados realizariam manifestação unitária pelo Dia do Trabalho. Como militante do Movimento Contra a Carestia, Vital conhecia bem os sindicatos da região, participara de várias de suas assembleias. Reunida no Paço Municipal, a multidão de trabalhadores foi logo cercada pela polícia, extravagante em homens, armas e veículos.

Logo a pancadaria começou: paus e pedras dos trabalhadores contra as bombas de gás e cacetadas da repressão. Mas a correlação de forças mudou quando levas de operários de São Paulo e cidades vizinhas, driblando as barreiras, começaram a chegar. Os policiais militares ficaram espremidos entre os que já estavam no Paço e os eu vieram em seguida. E foram dispersados à pauladas e pedradas, a socos e pontapés por uma massa de espoliados que, naquele momento, vingava-se dos que habitualmente a espancavam em qualquer manifestação. Depois, em passeata, dirigiram-se para o estádio da Vila Euclides.

No início dos anos 80, Vital mergulhou no Movimento Contra a Carestia, do qual saiu a vitoriosa candidatura de Aurélio Peres para deputado federal pelo PMDB, da qual ele participou intensamente. Presidiu, por essa época, o Centro de Cultura Operária, entidade criada para vocalizar o pensamento do partido ainda ilegal. De 1984 a 1987 foi segundo secretário do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, na diretoria liderada por Joaquim dos Santos Andrade, o Joaquinzão. A intensa participação de Vital nas lutas operárias e populares o levaram à Câmara Municipal de São Paulo nas eleições de 1988, onde permaneceu até 1996. Ao deixar a Câmara, tentou voltar à fábrica, mas não foi aceito. Tornou-se então profissional do partido. Já era membro da direção regional de São Paulo e do Comitê Central, eleito pelo VIII Congresso, em 1992. Em 2001 tornou-se secretário nacional de finanças.

*Jornalista a escritor paranaense, autor, entre outros livros, dos romances "As moças de Minas", "Memória e Neblina" e "Retrato no entardecer de agosto".