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“Diário do Hospício e O Cemitério dos Vivos”

Publicado em 02.10.2010

Nenhum outro escritor brasileiro penetrou tão fundo nos mecanismos de opressão sistemática a que está sujeita parte considerável da sociedade brasileira como o carioca Lima Barreto (1881-1922). Suburbano, negro e sem título universitário, aconteceu-lhe de também experimentar o estigma da loucura. Lima foi internado duas vezes no Hospício Nacional de Alienados por causa de problemas decorrentes do alcoolismo, uma em 1914 e outra entre 1919 e 1920.

Lima Barreto Cosac Naify, 352 págs.

Lima Barreto em 1914: edição permite observar a evolução do documental para a ficção


Durante a segunda internação, escreveu e em parte organizou anotações sobre seu cotidiano e sobre a loucura que vieram a receber o título de “Diário do Hospício” quando publicadas em 1956. No mesmo ano saiu em livro o desenvolvimento ficcional dessa experiência, o romance inacabado “O Cemitério dos Vivos”. Ambos reaparecem agora num só volume, com organização e notas de Augusto Massi e Murilo Marcondes de Moura e prefácio do crítico Alfredo Bosi. Completam a edição textos correlatos do próprio Lima Barreto e de Machado de Assis, Raul Pompeia e Olavo Bilac.

“Digo com franqueza, cem anos que viva eu, nunca poderão apagar-me da minha memória essas humilhações que sofri”, escreve Lima Barreto no diário. A violência começa com a internação forçada, para a qual seu irmão contou com o auxílio ilegal da polícia. Passa em seguida pelo transporte numa espécie de jaula gradeada e solta sobre rodas, tão traumático que, além de ser mencionado nos dois livros, aparece também no conto “Como o ‘Homem’ Chegou”. O calvário prossegue com a nudez forçada e a designação para a Seção Pinel, dos indigentes.

“Sem fazer monopólio, os loucos são da proveniência mais diversa, originando-se em geral das camadas mais pobres”, observa Lima Barreto. Por mais que se sinta no inferno, a piedade de si mesmo ocupa pouco o tempo do escritor e de sua personificação ficcional, Vicente Mascarenhas. “A loucura zomba de todas as vaidades”, aprende, logo, o primeiro. E o segundo, incumbido de varrer o chão e confundido com um aprendiz de marinheiro, vê utilidade na “aventura”: “Encheu-me de contentamento tirar a prova provada de que, na vida, não era coisa alguma; estava mais livre”.

Embora se irrite com frequência, principalmente ao perceber que, mesmo entre os internos, há os que se sentem superiores e com direito a privilégios por suas credenciais de “doutor”, o narrador, nos dois casos, afeiçoa-se a alguns dos pacientes e admira o trabalho dos funcionários do hospício.

Terrível mesmo é a convivência com a maioria dos médicos. Vê neles muita sedução pela novidade, arrogância e excesso de confiança nas teorias, quando deviam “ler a natureza”: “Pela primeira vez, fundamentalmente, eu senti a desgraça e o desgraçado. Tinha perdido toda a proteção social, todo o direito sobre o meu próprio corpo, era assim como um cadáver de anfiteatro de anatomia.”

Como em “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, Lima/Mascarenhas dedica um olhar crítico especial aos determinismos positivistas, com seus “preconceitos lógicos, bem etiquetados, enfileirados e disciplinados”. Observa que “não há espécies, não há raças de loucos; há loucos só”.

Um dos interesses da edição dos dois textos em conjunto é observar a evolução do documental para a ficção. Os capítulos escritos de “O Cemitério dos Vivos” permitem prever um grande romance que nunca existirá. Uma sacada ficcional exemplar é a descrição do abalo sofrido por Mascarenhas quando um interno, “menino, quase imberbe”, lhe diz com “candura, inocência e naturalidade” que está ali por ter cometido um assassinato. Suas certezas morais vão por água abaixo: “Chega-me esse pequeno criminoso e me põe tudo de pernas para o ar!”

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Fonte: jornal Valor Econômico