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Chacina da Lapa, o último grande crime da ditadura militar

José Carlos Ruy Publicado em 16.12.2020

Este dia, 16 de dezembro marca os 44 anos da tentativa da ditadura de, criminosamente, esmagar o PCdoB. Não deu certo.

A forte presença de policiais e soldados do Exército, com armas pesadas, cercando a casa de n º 767 da rua Pio XI, no alto da Lapa, em São Paulo, causou inquietação nos trabalhadores que, por volta das 6 horas da manhã daquela quinta-feira, 16 de dezembro de 1976, saiam para seus afazeres.

Como se soube depois, o Exército e os policiais estavam ali para cometer um dos mais sangrentos e maiores crimes políticos da ditadura militar, crime registrado na história com a designação de Chacina da Lapa.

A operação que culminou naquela ação criminosa e assassina foi iniciada no DOI-Codi do I Exército, no Rio de Janeiro. A repressão, através do DOI-Codi, de equipes do I e do II Exército e do DOPS, utilizou grande e sigiloso aparato para atingir e tentar destruir a direção do Partido Comunista do Brasil.

Trabalhou durante a noite toda e, quando recebeu a notícia de que a última prisão ocorrera, a tropa cercava a casa na rua Pio XI, liberou o tiroteio contra os que ali estavam, que durou quase vinte minutos.

Foi um dos piores crimes da ditadura militar: o assassinato a tiros de Ângelo Arroio e Pedro Pomar; sob brutais torturas, a morte de João Batista Drummond; e a prisão e tortura de Aldo Arantes, Elza Monnerat, Haroldo Lima, Joaquim Celso de Lima, Maria Trindade e Wladimir Pomar. Os corpos de Pedro Pomar e Ângelo Arroyo, trucidados pelo ação terrorista da ditadura.

O objetivo era riscar do mapa o partido que havia dirigido, desde o final da década de 1960, a Guerrilha do Araguaia, que foi a principal ação armada de resistência contra a ditadura militar.

A reunião do Comitê Central ocorreu nos dias 14 e 15. Fora convocada para avaliar a Guerrilha do Araguaia e teve a participação de nove membros da direção nacional do PCdoB: além dos já citados (que foram assassinados ou presos) lá estavam Jover Teles e José Novaes, além dos militantes que operavam no trabalho de infraestrutura e segurança (Joaquim Celso de Lima e Maria Trindade).

A ação da repressão foi possível porque Manoel Jover Telles (que fazia parte do Comitê Central) traiu o Partido e os companheiros e informou à repressão o dia e o local da reunião. Ele havia sido preso em meados de 1976, negociou com os órgãos da repressão política e forneceu informações que possibilitaram o massacre. Traiu por 150 mil cruzeiros (moeda nacional à época), entregues à filha dele, em Porto Alegre, disse mais tarde, em uma entrevista, o general Leônidas Pires Gonçalves, que foi um dos comandantes da ação criminosa – ação que teve a concordância direta do então ocupante da presidência da República, o general Ernesto Geisel.

Na época, devido à dura clandestinidade, as reuniões do Comitê Central ocorriam sempre sob rigorosas medidas de segurança que, para sua preservação, nunca se reunia completo, e uma parte dos dirigentes não participava.

O objetivo da sangrenta repressão era dizimar a direção do PCdoB. Particularmente pretendia assassinar João Amazonas, o principal dirigente do Partido. Mas não conseguiu alcançar esse objetivo. Mais tarde o general Dilermando Monteiro, também no comando da ação criminosa, reconheceu, numa entrevista, que o objetivo era assassinar João Amazonas; o outro era destruir o PCdoB. Não conseguiram nem uma coisa nem outra.

No caso do assassinato dos dirigentes do PCdoB e da tortura aos que foram presos, Dilermando seguiu as instruções de Geisel, como contou na entrevista à revista IstoÉ: “Aquilo foi acompanhado por mais de cinco meses de antecedência. Nós descobrimos que naquele dia iria haver uma reunião em tal lugar, com a presença de tais e tais elementos, e aí fomos um pouco embromados, porque constava para nós que o João Amazonas estaria presente e o mesmo estava na Albânia”. Ele confessou aqui, cinicamente, a pretensão de assassinar o histórico dirigente partidário.

A versão de Dilermando foi confirmada por Geisel: “Sempre se procurou acompanhar e conhecer o que o Partido [Comunista do Brasil] fazia, qual era a sua ação, como ele se conduzia, o que estava produzindo, qual era seu grau de periculosidade. Isso aconteceu durante todo o período revolucionário”. E Geisel prosseguiu: “o Dilermando, já no comando do II Exército, atuou em São Paulo sobre uma grande reunião dos chefes comunistas. A questão não era mais a força que eles tinham, mas não podíamos deixar o comunismo recrudescer. Fizemos tudo para evitar um recrudescimento das ações comunistas.”

A Chacina da Lapa foi um duro golpe para o Partido, mas a ditadura militar não conseguiu seu objetivo principal que era destruí-lo. As organizações partidárias mantiveram seu funcionamento e o PCdoB continuou intervindo no movimento de massas e com intensa ação política.

Referências

Bercht, Verônica. Coração vermelho – A vida de Elza Monnerat. São Paulo, Editora Anita Garibaldi/Fundação Maurício Grabois, 2013

D’Araujo, Maria Celina, e Castro, Celso. Ernesto Geisel. Rio de Janeiro, Editora FGV, 1997

Pomar, Pedro. Massacre na Lapa, como o Exército liquidou o Comitê Central do PCdoB. São Paulo, Editora Busca Vida, 1987

 

José Carlos Ruy é jornalista, escritor, estudioso de história e do pensamento marxista e colunista do Portal Vermelho.