Especiais - Cem anos de solidão, há 50 anos...

Macondo, a construção imaginária de um povoado

Do Portal Vermelho, com Clarín e Tal Publicado em 26.05.2017

Se há um povoado de uma história que se pode assegurar que existiu ou se desejaria que tivesse existido, este é Macondo. O relato de Gabriel García Márquez em seu livro Cem anos de solidão o fizeram tão real que ao longo do tempo o imaginário popular o reconstruiu através de desenhos, pinturas, mapas, planos, além de vinculá-lo diretamente a Aracataca, o povoado ao norte da Colômbia onde nasceu o autor.

Chegou a tanto esta necessidade de tornar Macondo real que em junho de 2006 o próprio povo de Aracataca fez um referendo para mudar o nome da cidadezinha para “Aracataca Macondo” e desta forma facilitar a identificação nos mapas. Ainda que o “sim” tenha ganhado, os votos não foram suficientes e o povoado manteve seu nome original. A casa natal de García Márquez, que havia sido demolida, foi reconstruída e atualmente é um lugar visitado por milhares de turistas.

Mas García Márquez nunca motivou esta busca pela materialidade do povoado fundado por José Arcadio buendía. “Por sorte, Macondo não é um lugar, mas sim um estado de espírito que permite a cada um ver o que quer ver e como quer”, disse certa vez o autor. De toda forma, a descrição de Macondo corresponde à de um povoado caribenho, típico da Colômbia, com ruas empoeiradas e certa precariedade que foi se desenvolvendo graças à visão dos Buendía.

“José Arcadio Buendía, que era o homem mais empreendedor que se poderia ver na aldeia, determinara de tal modo a posição das casas que a partir de cada uma se podia chegar ao rio e se abastecer de água com o mesmo esforço; e traçara as ruas com tanta habilidade que nenhuma casa recebia mais sol que a outra na hora do calor. Dentro de poucos anos, Macondo se tornou uma aldeia mais organizada e laboriosa que qualquer das conhecidas até então pelos seus 300 habitantes. Era na verdade uma aldeia feliz, onde ninguém tinha mais de trinta anos e onde ninguém ainda havia morrido”.

(...)

“Na primeira vez que chegou a tribo de Melquíades, vendendo bolas de vidro para dor de cabeça, todo mundo se surpreendeu por terem podido encontrar aquela aldeia perdida no marasmo do pântano, e os ciganos confessaram que haviam se orientado pelo canto dos pássaros.”

(...)

Aquele espírito de iniciativa social desapareceu em pouco tempo, arrastado pela febre dos ímãs, pelos cálculos astronômicos, sonhos de transmutação e ânsias de conhecer as maravilhas do mundo. De empreendedor e limpo, José Arcadio Buendía se converteu num homem de ar vadio, descuidado no vestir, com uma barba selvagem a que Úrsula conseguia dar forma a duras penas, com uma faca de cozinha. Não faltou quem o considerasse vítima de algum estranho sortilégio”.

(...)

“Mas até os mais convencidos da sua loucura abandonaram o trabalho e a família para segui-lo, quando atirou ao ombro as foices e machados, e pediu a participação de todos para abrir uma picada que pusesse Macondo em contato com os grandes inventos”.

A inspiração sobre Macondo chegou a Gabriel García Márquez quando aos 15 anos voltou com sua mãe a Aracataca para vender a casa de seus avós e ali vivenciou o contraste entre as imagens idealizadas de sua infância e a realidade de um povoado que lhe resultou triste e perdido no tempo.

Macondo se converte assim em outro protagonista da história que ao longo de suas páginas cresce, decai, renasce e se transforma junto à estirpe Buendia. Um dos ciganos da história, Melquíades, uma noite acreditou encontrar uma previsão sobre o futuro de Macondo, previu que se tornaria uma cidade real e moderna. “Seria uma cidade iluminada, com grandes casa de vitro, onde não ficaria nenhum rastro da estirpe dos Buendía”. Entretanto, José Arcádio Buendía o corrige e lhe diz: “não serão casas de vidro, e sim de gelo, como eu sonhei e sempre terá um Buendía, pelos séculos dos séculos”. Macondo, imaginária e eterna.

Documentário

Na série os Puros Criollos, dedicada à mostrar símbolos e locais da Colômbia, um episódio é dedicado à busca por Macondo. O pequeno povoado, uma encarnação do caos, dos conflitos, das tristezas e alegrias da Colômbia é descrito por especialistas e pessoas comum.

Assista ao vídeo na íntegra (em espanhol):

 

Colômbia | 00:24:00 Diretor: Néstor Oliveros Machado Sinopse

Macondo é mais que um povo, é o país descrito através de mil vozes e imagens, é uma metáfora do nosso cotidiano. É talvez a maior abstração já feita da Colômbia. Talvez por isso, seja válido para qualquer um dos mais de mil municípios da Colômbia e também para Bogotá. Através de depoimentos de pessoas comuns e especialistas, corporizaremos este símbolo tão intangível, que se tornou no reflexo dos nossos modos de ser, de criar, de sentir e pensar.

Macondo existe, é uma encarnação do nosso caos, dos nossos conflitos, de nossas tristezas e alegrias. É um povo onde a realidade supera a ficção. Macondo existe e é muito semelhante ao que é descrito como a terra da Criança Divina.

Série: LOS PUROS CRIOLLOS