Entrevistas

“Sérgio Rubens foi plantado para florescer novos guerreiros como ele”

Cezar Xavier Publicado em 08.12.2021

A presidenta do PCdoB, Luciana Santos, e o jornalista Carlos Lopes, amigo pessoal, fizeram as últimas despedidas a Sérgio Rubens, na necrópole da Vila Alpina, em São Paulo.

Despedida de Sérgio Rubens. Foto: Foto: Cezar Xavier

O último adeus a Sérgio Rubens de Araújo Torres, vice-presidente do PCdoB, foi um momento bucólico, sereno e emocionado sob uma frondosa árvore do cemitério da Vila Alpina, em que foram lembrados seus feitos e caráter, na tarde desta segunda-feira (6), após o falecimento em decorrência de um aneurisma. O amigo Carlos Lopes e a presidenta nacional do PCdoB e vice-governadora de Pernambuco, Luciana Santos, foram os únicos a dizer as últimas palavras, antes do enterro.

“Quando a gente perde um guerreiro, a gente não enterra ele, a gente planta, para que floresçam mais e mais guerreiros dessa luta pela humanidade”, disse Luciana. 

Seu contato maior com o dirigente do PPL, foi por ocasião da incorporação do partido ao PCdoB, após a eleição de 2018. Segundo ela, a primeira impressão foi de “apaixonamento”, pelo homem tranquilo, sereno, de densa formação cultural. “A gente estava se encontrando num momento muito adverso, nada mais nada menos, que a vitória de Jair Bolsonaro, em que a nossas duas legendas, o PPL e o PCdoB, estávamos exercitando o que nos unia”, lembrou. 

Ambos conheciam bem as trajetórias dos partidos e movimentos de resistência à ditadura militar. 

“Ali, fizemos o exercício da unidade. Ele dizia que nós, num momento como esse, devíamos buscar nossas convergências. Nós desejamos o mesmo para o Brasil, os brasileiros e brasileiras. Não queremos nada mais que o socialismo no Brasil. Temos formulações dos caminhos para onde chegarmos a isso. Somos marxistas e defendemos o socialismo científico. As nossas diferenças táticas são secundárias neste momento. Assim, ele agiu e praticou”, relata a dirigente comunista.

Ao longo do tempo, ela afirma ter tido a honra de conviver e admirá-lo cada vez mais, por sua consistência e capacidade de elaboração. “Antes de tudo pelo espirito partidário e de unidade que movia ele. Qualquer que fosse a circunstancia e o momento, ele era honesto intelectualmente, nunca deixou de afirmar suas convicções, sempre procurando o caminho de harmonizar”, observou Luciana.  

Mas ela também notou que, cada um que conviveu mais intimamente com Sérgio Rubens, “tem memória da afetividade, da generosidade, do cuidado”. “Isso parece óbvio, mas o verdadeiro comunista é aquele que, ao entender que esse mundo tem jeito, procura cuidar, formar, dar consistência ideológica, persistir. Ele era um formador de gerações, um educador; sei do quanto ele primava por isso”. 

Luciana provocou risos ao dizer que, em sua paixão pelo cinema, não tinha uma semana que Sérgio não mandasse um filme para ela assistir. Ela mencionou o projeto recente dele, em parceria com a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), de um cineclube para exibir os filmes que refletissem o debate da luta dos trabalhadores.

“Camaradas, Sérgio Rubens era um homem de perspectiva, e suas ideias estão entre nós e permanecerão como uma necessidade. Uma necessidade de um futuro que ele lutou para percorrermos e alcançar”, definiu.

“Nessas horas é fato que a gente se sente órfão, porque essas são pessoas insubstituíveis. Mas essa convicção que sempre moveu ele, desse mundo que a gente tanto persegue, recai sobre nós com mais responsabilidade ainda”, disse ela.

“Quando a gente perde um guerreiro, a gente não enterra ele, a gente planta, para que floresçam mais e mais guerreiros dessa luta pela humanidade. Ainda mais ele, que é um desses quadros políticos. Muitos de nós temos qualidades e defeitos, mas é impressionante como Sérgio era um quadro acima da média, porque conseguia reunir muitas qualidades difíceis de serem desenvolvidas por uma pessoa só.

Além de grande capacidade de elaboração teórica, tinha opinião própria, era um ideólogo de uma densa cultura. Por isso, falava com fundamento e consistência. Não havia nada que falasse que não fosse transformar a reflexão daquela circunstância e determinado momento”.

Ao dizer que sabia o quanto Sérgio era amado, Luciana embargou a voz, declarando a certeza do quanto ela passou a admirá-lo e amá-lo, também, por tudo que vinham construindo juntos.

“Ele teve um gesto de grandeza num momento que não era fácil encontrar. Afinal ele foi o sucessor de Claudio Campos, portanto um sucessor de um grande legado, de uma grande história. De grandes feitos da história e grandes momentos de virada da conjuntura brasileira”, dizendo do momento de incorporação do PPL ao PCdoB. 

“Ele podia não engrossar essa fileira, mas fez um gesto político de grandeza, do tamanho das ideias dele e da estatura que ele era”, disse. “Podem ter certeza, camaradas, que esse legado que o Sérgio deixou pra gente, vamos fazer jus a ele, vamos ter que, cada vez mais, jogar luz e dar o peso e o tamanho que ele tem. E servir de referência para a gente e a nossa perspectiva”, garantiu. Luciana chamou um longo aplauso ao aclamar: Sérgio Rubens, presente! 

O amigo

 
O jornalista Carlos Lopes fala de sua longa amizade com Sérgio Rubens (Foto: Foto: Cezar Xavier)

As despedidas começaram com as palavras amigas do diretor de redação da Hora do Povo, Carlos Lopes. Falou de sua relação de debate e aprendizado pelas décadas que conviveu diariamente com ele. “Sérgio era, e até agora foi, a alma do Hora do Povo. Ele era um homem extremamente inteligente, comprometido e rigoroso”, disse

“Eu sabia perfeitamente que quando as coisas publicadas no jornal não estavam rigorosamente exatas, eu ia receber um telefonema que não ia ser agradável, E, no entanto, meus amigos, era o que ele devia fazer mesmo e isso foi bom para todos nós”, prosseguiu o jornalista.

Carlos apontou as qualidades que tornavam Sérgio “tão especial”. “É fundamentalmente a identificação dele com tudo que é humano”, disse, parafraseando do latim o “nada do que é humano me é estranho”. Para Sérgio, o homem só se desumaniza naquilo em que erra, e faz de ruim para desumanizar o outro. Isso era o que ele não suportava. 

“Desde cedo, desde secundarista, na ligação dele com a cultura, na ligação com a luta do povo brasileiro, ele foi um homem de partido. Brecht, poeta que ele gostava muito, escreveu uma coisa muito importante: ‘um homem sem partido é um homem medíocre’. E isso, Sérgio compreendia muito bem. Ele sempre foi um homem de partido”, destacou o dirigente do PCdoB.

Mas Carlos aponta também o cuidado com a família, para além da dedicação à política. “Eu como amigo pessoal dele, várias vezes conversamos sobre os netos. E em tudo era aquele sentimento de humanidade e de humor. Era um homem severo, mas ao mesmo tempo um homem de uma compreensão imensa”, prosseguiu. 

Carlos relata ter conhecido Sérgio pessoalmente em 1978, durante as conferências regionais para o II Congresso do MR8, em Alagoinhas (BA). “Eu estava bastante mal e disse algumas besteiras. No intervalo ele me chamou e começou a fazer perguntas. A capacidade do Sérgio de fazer perguntas que ninguém tinha pensado ainda, para descobrir a verdade, para fazer com que a gente estudasse era impressionante”, relatou, apontando a questão da educação e formação do trabalhador como uma necessidade imprescindível para a tomada do poder. 

Carlos Lopes enfatizou que “nós perdemos um grande homem”. “Engels, no enterro de Marx, disse que uma das qualidades impressionantes de Marx é que ele nunca teve um inimigo pessoal. E a mesma coisa nós podemos dizer do Sérgio, durante toda sua vida. Era preciso ser um canalha para ser inimigo pessoal do Sérgio.”, concluiu o jornalista.

Homenagens 

 
(Foto: Cezar Xavier)

Diversos dirigentes do PCdoB e amigos fizeram declarações de despedida e memória pelo legado do vice-presidente nacional do PCdoB e líder histórico do MR8 e do Partido Pátria Livre.

Nesta segunda-feira (6), o vice-presidente nacional do PCdoB, Sérgio Rubens, foi velado no cemitério da Vila Alpina, na Zona Leste de São Paulo. Compareceu uma multidão de amigos, parentes, dirigentes do PCdoB e companheiros e amigos de longa data.

A reportagem colheu depoimentos que destacaram o caráter do líder revolucionário, do homem carinhoso e do dirigente agregador, que, nos últimos anos, teve um papel e desafio fundamental na unificação do PCdoB com o PPL para o enfrentamento da extrema-direita no poder. Sérgio deixou uma impressão muito forte, mesmo em quem o conhecia a pouco tempo. 

Saiba o que disseram as pessoas que compareceram a sua despedida:

Rosanita Campos:  Perdi um grande amigo. Mais de 40 anos que convivemos nas lutas do dia-a-dia. Vou sentir muita falta dele. Foi grande amigo e colaborador do Claudio [Campos]. Tudo que Claudio fez, foi com ajuda do Sérgio. Depois que o Claudio morreu, Sérgio era considerado pelas minhas filhas o segundo pai delas, tamanho o cuidado que tinha com nossa família até o último dia de vida. Muito triste a perda dele, mas estamos prontos para seguir na luta, seguir em frente com seu legado e procurando trilhar pelos ensinamentos que ele nos deu e o legado que nos deixou. Esse é o meu objetivo, hoje, em preservar a memória dele. 

Jorge Venâncio: É uma perda enorme, mas fica o exemplo. Um exemplo de compromisso com a verdade, muito forte. Você ter respeito com a verdade, é uma forma de respeitar o outro, o próximo. A mentira é, no fundamental, um desrespeito com quem você está se dirigindo. Essa lição ele deixou. quando você esta falando a verdade, você ganha o respeito até de quem não concorda com você. Ao passo, que o outro caminho é o de perder o respeito até por si próprio. Essa é uma lição muito forte que ele deixa para todos nós. E seguramente vamos nos esforçar para estar a altura dessa missão.  

Nilson Araújo: O Sérgio cumpriu um papel histórico profundo, que ele continuou construindo, no papel de unificação do PCdoB com o PPL. Um processo que dota o partido de mais condições de enfrentar as adversidades para construir a grande nação brasileira e preparar as condições para melhor a vida do povo, para construir o socialismo. O Sergio contribuiu muito para as formulações e seu legado permanece entre nós. Nós vamos seguir essa luta e levar juntos essa bandeira. 

Renildo Calheiros: O Sergio foi um grande brasileiro, um revolucionário, um homem que dedicou toda a sua vida à luta do povo, à luta pela independência do Brasil, pela transformação e desenvolvimento do país. Sérgio Rubens foi professor de várias gerações, um dirigente muito querido, respeitado e amado. E só é assim, muito amado, uma pessoa que ao longo da sua vida foi capaz de compreender os outros, dar atenção, dar carinho, apoiar, e ajudar construir e manifestar solidariedade. É um grande prejuízo para todos nós e uma lacuna que não teremos como preencher. Mas a luta tem que prosseguir, tem que continuar. Esse era o ideal do Sérgio e foi isso que juntou tanta gente em torno dele e essa luta vai continuar. Camarada Sérgio, presente!

Nivaldo Santana: O nosso camarada Sérgio Rúbens, vice-presidente do PCdoB e grande líder histórico do MR8 e do PPL, deu enormes contribuições à luta democrática, patriótica e popular do nosso país. Uma pessoa inteligente, de sólida cultura, e um compromisso com a causa do nosso país, os direitos dos trabalhadores, com a causa revolucionária, sem paralelo. É uma perda irreparável. A melhor forma que nos temos de homenageá-lo é perseverar na luta e defendermos os mesmos ideais que ele defendeu ao longo de sua vida.  

Jamil Murad: O Sérgio foi um revolucionário provado na luta, muito culto, muito competente, muito capaz. Mostrou isso em sua vida toda. Partiu cedo por causa de uma doença grave  e desde menino mostrou coragem, determinação, consciência de que teria que lutar para defender o brasil, a democracia, os trabalhadores e o nosso povo. Ele morreu hasteando essas bandeiras. De lá pra cá, já prestou muito serviço ao nosso povo, procurando aglutinar patriotas e democratas, gente progressista, numa grande frente para liquidar o fascismo no Brasil, nesse momento. Dar continuidade a luta por um projeto nacional de desenvolvimento, o bem-estar para o nosso povo numa perspectiva socialista. Uma perda enorme para o Brasil, para o PCdoB, para os companheiros que vieram com ele do PPL, uma perda terrível par ao nosso povo. Mas ele deixa sementes, orientações, luz que ajuda a clarear esse caminho para nos ajudar. 

Ricardo Alemão Abreu: Uma perda terrível. Sob todo ponto de vista, irreparável. Sérgio Rubens era um camarada muito especial. Chamava a atenção que ele tinha muita convicção ideológica e formação marxista verdadeira, não dogmática, não formal, mas conhecia muito nossa teoria revolucionária. Era um homem simples e dedicado ao partido. Esse é o principal exemplo que ele deixa, de entregar a vida, o tempo todo, à revolução brasileira. A decisão que ele ajudou a tomar, foi um dos principais expoentes e um grande  mestre dessa unificação dos comunistas do Brasil. É parte de uma obra muito grande. O Sérgio não era só um gigante na altura, mas muito maior em sua estatura moral e como quadro revolucionário.

Walter Sorrentino: Morreu um marechal de campo, condutor há mais de seis décadas. Uma enorme experiencia, um enorme compromisso, uma enorme talento politico. Com a diferença também de que era um homem muito afável, sereno, culto. Adorava cinema e ciências. Um grande dirigente da luta dos brasileiros por uma nação livre e soberana e por uma vida melhor para o povo. Mas perdemos também um amigo, o ser humano como poucos. Foi praticamente uma amputação irremediável para nós todos. Gente assim não passa. Ele nos deixa a bússola que utilizou aprimorou e vamos seguir nessa bússola. Nossa memória é mais forte que a morte dele. Não tem como esquecê-lo. Morreu um grande brasileiros um grande revolucionário.  

Adilson Araújo: Primeiro, temos que ressaltar a grandeza de Sérgio Rubens na unificação do PCdoB com o PPL, que esperançoso nosso partido a seguir lutando pelo socialismo e pela construção de um Brasil mais humano e menos desigual. Segundo, que do ponto de vista da relação com a classe trabalhadora, o Sérgio Rubens reunia importante singularidade. Em parceira com a CTB [Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil], ele pensou em construirmos juntos um cineclube voltado a promover um processo de reflexão e interação, propiciar filmes que pudessem ajudar na valorização da cultura e na formação político-ideológica. Portanto, essa ideia do cineclube, enquanto contrapartida da CTB, nós temos mais motivos para levar adiante. É a certificação da contribuição do Sérgio guerreiro da pátria e do povo brasileiro. 

Orlando Silva: Nem consigo falar, assim. Eu estive com o Sérgio na segunda-feira. Ele era só entusiasmo, alegria, motivação. Falamos longamente sobre tudo, sobre o Brasil, sobre o capitalismo, sobre história, sobre cultura. O Sérgio é uma inspiração muito poderosa, uma figura que educou gerações com o exemplo, com combatividade. Só tenho a dizer: obrigado, Sérgio, pro existir, por nos ajudar, por construir tudo que você construiu. O desafio nosso é que as próximas gerações possam seguir com a mesma firmeza, combatividade, determinação, consciência, disposição, entusiasmo, bom humor e alegria.

Jandira Feghali: Eu conheci o Sérgio nesse processo da incorporação [do PPL pelo PCdoB] e o impacto da presença dele era muito forte, porque, além dele ser uma pessoa muito densa, do ponto de vista da formação política e cultural, muito ligado que era ao cinema, era uma pessoa muito profunda. Então, ele trouxe, de cara, um ensinamento, uma troca muito forte, um aprendizado. Uma pessoa de partido, revolucionário, e muito de bem com a vida, sempre com um sorriso, muito sereno e tranquilo. Sempre construindo a unidade, construindo um processo de deixar para agora e para o futuro um legado de unidade de construção revolucionária e de enfrentamento da extrema direita. E sempre pensando o Brasil. Então, vou lhe dizer: uma perda imensa para nós e para o país. E muito jovem, 73 anos, ainda tinha muitos sonhos. Ele tinha, de fato, muitos sonhos, porque dizia isso. Pra mim, foi um impacto enorme pelo que vai significar do buraco que fica, porque não é fácil substituir uma pessoa como o Sérgio. Ao mesmo tempo, uma tristeza, porque é uma morte que a gente não esperava para esse momento de reconstrução do país, momento de reconstrução da unidade política do nosso campo, de enfrentar uma duríssima batalha que vamos enfrentar. Ficar sem o Sérgio deixa um vazio muito estranho para todos nós. Eu estava ali com a esposa dele e ela dizia que estava vendo, aqui, tantas sementes. Olha quantas sementes estão ficando! Este é o sentimento, de que ele construiu tanta coisa, mas poderia construir muito mais. Então é muito difícil perder pessoas como ele, Haroldo Lima, nesse período. É muito duro, mas estamos aí para continuar.