Centro de Documentação e Memória (CDM)
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Documentário do 7º Congresso do Partido Comunista do Brasil

Centro de Documentação e Memória Publicado em 05.04.2021

Em maio de 1988, o PCdoB realizou o seu 7º Congresso – o primeiro após o fim da ditadura e a legalidade em 1985. Foi público e aberto, diferente do anterior (6º Congresso, 1983) que se desenvolvera, ainda, de forma clandestina. O documentário de 78 minutos feito logo após a realização do congresso reflete esse clima de maior liberdade.

O Centro de Documentação e Memória (CDM) da Fundação Maurício Grabois digitalizou e publica este documento na íntegra no embalo do centenário do Partido Comunista do Brasil. O vídeo foi produzido pela “Núcleo de Vídeo do PCdoB” que, para os recursos disponíveis da época, fez um trabalho minucioso de edição.

Desde o início é dada importância e são feitas homenagens aos membros das delegações estrangeiras que vieram participar do congresso representando seus partidos e organizações. O documentário apresenta alguns deles com legendas de trechos de suas intervenções. Dentre eles Piro Kondi (Partido do Trabalho da Albânia), Hash Balema (Liga Marxista-Leninsta do Tigre, região da Etiópia), Eduardo Pires (Partido Comunista – Reconstruído – de Portugal), Klaus Klausin (Partido Comunista da Dinamarca, M/L), Pablo Mayoral (Partido Comunista da Espanha, M/L) e Joseph Johnson (Partido Comunista do Canadá, M/L). Todos trouxeram entusiasmadas mensagens de êxitos para o PCdoB e demonstraram alegria em ver o país a salvo do período obscuro.

A primeira intervenção, após a instalação da mesa, foi da veterana Elza Monnerat em homenagem a Maurício Grabois que havia sido eleito presidente de honra do 7º Congresso do Partido Comunista do Brasil. Nas suas palavras: “homem de decisão, coragem e firmeza na luta política, ideológica e teórica. Maurício Grabois foi um dos principais organizadores do movimento guerrilheiro do Araguaia. Sabia que seria uma batalha de cem contra cem mil.”

A principal intervenção foi o Informe político de João Amazonas, intitulado “O Brasil numa encruzilhada histórica”. Nele o veterano dirigente faz um balanço da situação brasileira mostrando a grande vitória que foi o fim da ditadura e, ao mesmo tempo que “a Nova República envelheceu prematuramente”: “Em fins de 1986, José Sarney, sob pressão das forças mais reacionárias, volta-se para a direita e põe em prática uma orientação contrária ao povo e aos interesses nacionais. Perde rapidamente a base política de apoio e entra em crise. Esta aparece como consequência do injusto caminho que segue, combatido pelas forças democráticas.” Conclui que: “O Brasil encontra-se numa encruzilhada histórica. Ou rompe radicalmente com o atual estado de coisas e assegura um desenvolvimento econômico independente, abre clareiras para o progresso efetivo, para a democratização e a modernização da vida nacional ou afunda-se no pântano da decadência e da submissão à oligarquia financeira imperialista.”

Amazonas tratou também das questões internacionais apontando a ofensiva imperialista estadunidense e os problemas que se tentavam resolver com falsas soluções como Perestroika e Glasnost, na então União Soviética. Mostra que na América Latina, África e Ásia existem possibilidades de resistência e superação da exploração capitalista. Faz, ainda, uma emocionante homenagem aos comunistas que tombaram assassinados pela ditadura militar.

Seguiram os principais pronunciamentos do congresso: “Sobre o Programa do Partido”, de Renato Rabelo; “Sobre questões de organização”, por Dynéas Aguiar e outras intervenções especiais como “Organizar e elevar a luta de ideias a um novo patamar”, de Rogério Lustosa; “Sobre o trabalho de educação dos comunistas”, de Walter Sorrentino; “A frente sindical e nossas tarefas”, de Ronald Freitas; “A propósito da experiência dos comunistas na Constituinte Brasileira de 1987-88”, por Haroldo Lima; “O socialismo para a juventude/ juventude para o socialismo”, de Aldo Rebelo; e a “Luta pela emancipação da mulher”, de Jô Moraes. Cada um desses participou com trechos ao longo do documentário.

Além da eleição de um novo Comitê Central também foram deliberados o novo Estatuto e o novo Programa do PCdoB, refletindo a nova época e os novos desafios.

Abaixo três textos do caderno de resoluções do 7º Congresso:

·         Estatutos aprovados no 7º Congresso do PCdoB 

·         O Brasil numa encruzilhada histórica, de João Amazonas 

·         A experiência dos comunistas na Constituinte de 1987/88, de Haroldo Lima 

Em alguns momentos são mostradas entrevistas feitas por Télia Negrão que ajuda a mostrar o entusiasmo dos delegados com a realização do 7º Congresso do PCdoB. Esse clima também se reflete em algumas das intervenções que são mostradas ao longo do documentário. Dentre elas a de José Basílio (Doza), delegado do Pará que lembra que a militância do comunistas, às vezes tem que enfrentar a violência; e faz uma homenagem a Cordolina Fonteles – mãe do advogado comunista assassinado Paulo Fonteles –, presente, e que também faz um emocionado pronunciamento.

Alguns pronunciamentos complementares aos temas das intervenções especiais também são merecedores de menção como os de: João Batista Lemos, Luís Fernandes, Aldo Arantes, Luís Manfredini, Sérgio Miranda e Apolinário Rebelo.

Ao final, a Orquestra Sinfônica de Campinas regida pelo Maestro Benito Juarez apresenta uma leitura do Bolero de Ravel e do hino A Internacional. Se dirigindo ao plenário do congresso, o maestro afirma: “Meus amigos, realmente foi um momento histórico da nossa Orquestra. Na hora que nós estávamos tocando o Bolero do Ravel, eu realmente viajei um pouco em termos de imaginação e associei a música, porque ela começa muito tênue, mas muito forte – é uma música de uma profundidade muito grande, de muita energia. E toda aquela história, aquele tema que se repete (uma célula rítmica), e eu pensei realmente no PCdoB. Nos partidos progressistas de todo mundo.”

O maestro acertou na sua analogia. O PCdoB havia vindo das dificuldades, dos subterrâneos que resistiram à ditadura militar. Não pode mostrar sua pulsação, assim como o bolero – que começa sem que ninguém perceba e cresce. O PCdoB também cresceu, se desenvolveu, amadureceu ainda mais. Lutou contra o que restava de arbítrio e as investidas do neoliberalismo, denunciou o Consenso de Washington e se enraizou ainda mais no povo em todo o território nacional. O 7º Congresso foi um marco para o PCdoB e moldou a atuação dos comunistas para os próximos quatro anos.