Centro de Documentação e Memória (CDM)
Especiais - Guerra Civil Espanhola (1936-1938)

Fomos para lutar junto com o povo espanhol

Francesco Rizzi Publicado em 17.07.2016

Breve entrevista dada pelo histórico dirigente comunista Roberto Morena (1902-1978) à revista italiana Realidade Brasileira nº4 de julho de 1976. Ela era editada na Itália por exilados brasileiros, ligados ao antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB).

O Portal da Fundação Maurício Grabois relembra os 80 anos do início da guerra civil espanhola (1936-1938) e, ao mesmo tempo, homenageia os militantes brasileiros que participaram daquele conflito ao lado das forças democráticas e antifascistas, publicando a breve entrevista dada pelo histórico dirigente comunista Roberto Morena (1902-1978) à revista Realidade Brasileira nº4 de julho de 1976. Ela era editada na Itália por exilados brasileiros, ligados ao antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB). Agradecemos a José Luiz Del Roio e ao CEDEM-Unesp, depositátio dos arquivos de Roberto Morena, que nos cedeu cópia deste artigo. A tradução foi feita por Lucília Ruy.  

Fomos para lutar junto com o povo espanhol

Realidade Brasileira entrevistou o sindicalista Roberto Morena, membro do Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro e ex-deputado federal, sobre um tema não muito conhecido: a participação dos comunistas brasileiros, de 1936 a 1939, na defesa da República espanhola. Morena foi um dos brasileiros que participaram daqueles acontecimentos.

Realidade Brasileira – Como recebeu as notícias vindas da Europa sobre o início da guerra civil espanhola?

Morena – É conhecido o fato de que, após nossa derrota na insurreição de novembro de 1935, um grande número de pessoas de esquerda foi preso, em primeiro lugar os membros do PCB; por isso, nós recebemos essa notícia na prisão. Mas já tínhamos conhecimento da criação da Frente Popular naquele país e nos lembramos que o povo espanhol foi muito solidário com os prisioneiros políticos brasileiros e organizou uma grande campanha a favor dos companheiros Prestes, Olga Benário, Harry Berger e sua companheira Elise.

RealidadeBrasileira – Qual foi a atitude que o senhor – na prisão – assumiu diante dos acontecimentos?

Morena – De que devíamos defender a República Espanhola porque desde os primeiros dias já ficou claro que se tratava de uma intervenção externa, da parte do fascismo italiano e do nazismo alemão, contra a Frente Popular, e isso era um fato muito grave até mesmo para nós que estávamos na prisão.

RealidadeBrasileira – Naquela época havia muitos prisioneiros no Brasil?

Morena –Muitos. Só na assim chamada “detenção” do Rio de Janeiro éramos mais de mil. E não havia apenas prisioneiros civis, mas também muitos militares, elementos dos batalhões do Norte, do 3º Regimento de Infantaria do Rio etc. 

RealidadeBrasileira – A ideia de que se devia lutar na Espanha quando começou a tomar corpo?

Morena – Imediatamente. Começamos a enviar mensagens de solidariedade, a organizar cursos e conferências sobre a Espanha: tudo isso na prisão. Naquele período, Macedo Soares, que era ministro da Justiça do governo Vargas, preocupado com as repercussões dos assassinatos e torturas que ocorriam nos cárceres, decidiu conceder alguns habeas corpus e assim eu e alguns outros companheiros obtivemos a liberdade e viemos a saber que o Birô Político do Partido havia decidido enviar à Espanha por volta de cem quadros, sobretudo militares, para lutar junto com as Brigadas Internacionais que iam se formando. 

RealidadeBrasileira – Concretamente, como isso aconteceu?

Morena –Bem, tudo isso foi muito difícil. O Brasil não tinha relações com a República Espanhola, e nós éramos duramente perseguidos. Assim, o Partido decidiu que o grupo – do qual foi designado como responsável e ao mesmo tempo devia representar o Birô Político do partido na Espanha – deveria ir até o Uruguai e lá obter documentos para partir para a França. Muitos dos nossos companheiros não conseguiram atravessar a fronteira até o Uruguai. Uma vez em Paris, tudo foi mais fácil: de lá o comitê de apoio ao povo espanhol nos conduzia à Espanha. E assim em meados de 1937 já nos encontrávamos em território espanhol.

RealidadeBrasileira – Como foram distribuídos os brasileiros entre as diversas frentes?

Morena – Nós, devido à difícil situação em que nos encontrávamos e também por causa das grandes distâncias que tínhamos que percorrer, não conseguimos formar uma brigada brasileira e fomos incorporados numa outra. Tínhamos enviado muitos oficiais aviadores mas a República dispunha de poucos aviões e, por ordens do governo, deviam ser usados apenas pelos espanhóis. Dessa forma, fomos mandados para a infantaria à exceção do tenente Enéas que tinha ido para a aviação e morrido em combate. Outros, como o major Costa Leite, os tenentes Gay Cunha, Dinarco Reis, Apolônio de Carvalho, Hermenegildo Brasil – que depois morreu num campo de concentração francês –, Correia Sá, David Capistrano – assassinado pela atual ditadura no Brasil –, Brunviscki etc. lutaram na infantaria, como já foi dito. 

RealidadeBrasileira – E o senhor foi designado para onde?

Morena –Eu era comissário político nas Brigadas Garibaldi, mas a direção do Partido decidiu que havia muitos homens na frente militar e então eu fui designado para uma atividade administrativa. Foi realizada uma reunião em Madri para discutir para onde me mandariam: estavam presentes o companheiro Togliatti, Pedro Checa e Anton, que foi morto o ano passado em Paris. Naquela ocasião, foi decidido enviar-me – como membro da direção – à região de Alicante.

RealidadeBrasileira – Com a aproximação do fim da guerra, como os brasileiros foram retirados da Espanha?

Morena –Os companheiros que se encontravam na região centro-norte foram embora com as Brigadas que iam para a França, e os companheiros que estavam no sul – poucos – deveriam sair por meios marítimos, numa situação já muito difícil.

RealidadeBrasileira – Com a saída, onde se concentraram os brasileiros?

Morena – Todos se concentraram na França, onde em seguida se esconderam e, com o início da Segunda Guerra Mundial e a derrota da França, alguns companheiros passaram a fazer parte da resistência francesa; outros voltaram para a América Latina. O meu caso foi uma exceção, porque eu tinha responsabilidades políticas, e não estava submetido ao comando militar. E então permaneci na região sul até o final da guerra e saí quando as tropas fascistas já tinham iniciado a ocupação de Alicante. Fomos resgatados – pelo menos os que restaram – por um navio francês que nos levou até Oran onde fomos presos em campos de concentração.

RealidadeBrasileira–Qual foi o sentido da participação brasileira na guerra contra o fascismo na Europa?

Morena – Foi de clara solidariedade. Apesar das condições em que nos encontrávamos, fomos para lutar junto com o povo espanhol, do qual conservamos gratas lembranças. Uma vez terminado – em 1945 – o Estado Novo, criamos a Associação Brasileira de Ajuda ao Povo Espanhol, que desenvolveu muitas iniciativas de solidariedade à luta antifascista espanhola, e muitos de nossos companheiros foram presos durante esse trabalho de solidariedade. Nós nos sentimos muito ligados às lutas do povo espanhol e por elas temos um grande respeito.

Por Francesco Rizzi