Centro de Documentação e Memória (CDM)
Coleção Princípios - EUA contra os povos

Estados Unidos: Os bárbaros modernos e a ordem neofascista - Entrevista com Miguel Urbano Rodrigues

Miguel Urbano Rodrigues* Publicado em 01.11.2001

O jornalista Miguel Urbano Rodrigues está de agenda cheia após os ataques a Nova York e ao Pentágono, em 11 de setembro. São entrevistas em redes de televisão e jornais, e convites para inúmeros debates. Seu livro Nômades e sedentários na Ásia Central, cujo principal foco são as civilizações da região do Afeganistão passou a ser referência para o entendimento da guerra empreendida pelo governo neofascita de George W. Bush e o establishment dos Estados Unidos. Miguel Urbano Rodrigues é um veterano militante comunista e assíduo colaborador de Princípios. Ele foi deputado pelo PCP no Parlamento português em várias legislaturas, e também no Parlamento Europeu

Após os ataques de 11 de setembro contra o World Trade Center e o Pentágono, falou-se na perda da aura de invulnerabilidade do Império. Mas aqueles ataques não podem representar – e as atitudes posteriores do governo dos EUA mostram isso – um reforço do poder desse mesmo Império e o incremento dos ataques contra a soberania nacional de todos os países?

Miguel Urbano Rodrigues – Ambas as conclusões expressam a realidade concreta. Os atentados terroristas do 11 de setembro iluminaram a vulnerabilidade do Império, mas paradoxalmente criaram condições favoráveis ao desenvolvimento da estratégia de dominação planetária e perpétua dos EUA adotada pelo sistema de poder norte-americano a partir da administração Reagan.

A decisão de levar a guerra punitiva a um país longínquo, e a necessidade de inventar um “inimigo número um”, resultaram em grande parte de uma exigência política: impedir a todo custo que o povo norte-americano compreendesse que o essencial da máquina terrorista que montou os atentados está enraizado no próprio território dos EUA. O conhecimento da verdade poderia gerar uma situação de paranóia coletiva. Mas a escolha do mau, na fita, obedeceu a um objetivo estratégico inconfessável: a penetração política e econômica maciça dos EUA na Ásia Central. Entretanto o massacre da mídia que sataniza Bin Laden e a Al Qaeda é pouco inteligente. No Afeganistão os computadores continuam a ser peças raríssimas. Seria impossível montar e comandar a partir daquele país a logística ultra-sofisticada da operação do 11 de setembro.

Os EUA, que atravessavam uma crise complexa, simultaneamente econômica e política – marcada por um isolamento crescente e atritos preocupantes com os aliados do G-7 – foram, de repente, enormemente beneficiados pelas conseqüências da agressão terrorista. A guerra reanimou a economia e os gigantes do complexo militar-industrial, e o setor da construção, começaram a fazer negócios fabulosos. A imagem de vítimas permitiu que de uma posição de isolamento passassem a de credores da solidariedade mundial. Assistiu-se em poucos dias a uma inversão da conjuntura mundial. Washington manobrou inicialmente com habilidade e os EUA apareceram como líderes da coligação de países para erradicar o terrorismo da Terra.

Mas logo ficou transparente que a idéia da “retaliação” contra o inimigo invisível era perfilhada unicamente pelo grupo de países que, representando menos de 20% da humanidade controla 85% da riqueza produzida.

O bombardeamento das cidades afegãs iluminou tragicamente a arrogância ilimitada do sistema de poder imperial. A estratégia dos EUA deixa transparecer uma política voltada para a militarização da sociedade global.

A ordem mundial implantada sob o tacão dos EUA, reforçada desde o fim da URSS, parece basear-se na lógica de que o mundo é formado por “vencedores” e “perdedores”, não admitindo qualquer contraposição. Em que medida os ataques do dia 11 de setembro reproduzem essa lógica?

Miguel Urbano Rodrigues – A irracionalidade do terrorismo, as proporções que assumiu o desespero dos suicidas do 11 de setembro, são inseparáveis da irracionalidade da política imperial dos EUA. Existe entre ambas uma relação de causa-efeito.

O discurso moralista e maniqueísta de Bush e dos generais e almirantes do Pentágono pretende tomar como modelo o dos países fundadores da pátria. Mas, em sua versão moderna, o mito da “nação predestinada”, a única vocacionada para salvar a humanidade, difere do inicial porque a ordem dos puros, dos bons, é imposta pelos mísseis tomawhac e pelas cargas de morte que os bombardeiros despejam dos céus. A sentença de Bush, segundo a qual Deus apóia a guerra norte-americana porque ela seria justa, traduz dramaticamente o inquietante primarismo dos homens que atuam e falam hoje pelo sistema de poder do Império. Sua lógica é a mesma dos mulahs que no Islã fazem apelos à guerra santa contra os infiéis cristãos.

A decisão “humanitária” de jogar jogar rações alimentares para os afegãos, dos aviões que simultaneamente os matam com bombas, parece inspirada por uma novela de Kafka.
Uma das conseqüências da nova situação foi a restrição às liberdades públicas contra cidadãos norte-americanos e estrangeiros, com destaque ao controle da atividade dos jornalistas e à censura à imprensa. Em que medida essas restrições aprofundam uma situação anterior de ataques aos direitos civis, que se expressam de modo inequívoco no crescimento do número de prisões desde 1970, como mostra recente estudo publicado pela Monthly Review?

Miguel Urbano Rodrigues – O lúcido estudo da Monthly Review é da maior atualidade. A imagem dos EUA na mídia, como a terra prometida das liberdades, é puramente ficcional. Um relatório da Anistia Internacional comenta o aumento alarmante da população carcerária (com uma enorme porcentagem de negros) e revela que a tortura se tornou rotineira em muitas prisões. No Muro do México a Patrulha da Fronteira assassina impunemente imigrantes ilegais e viola com freqüência mulheres presas. Uma associação de fazendeiros do condado de Cochise, no Arizona, promove, de jipe e a cavalo, caçadas a mexicanos, que são espancados antes de entregues às autoridades.

Obviamente os acontecimentos do 11 de setembro criaram atmosfera favorável às campanhas das forças políticas que reclamam restrições às liberdades públicas, alegando que são indispensáveis ao combate contra o terrorismo. Alguns estados já legislaram nesse sentido, impondo medidas, por vezes inconstitucionais, que atingem sobretudo os estrangeiros. Em universidades e escolas privadas a caça às bruxas manifesta-se através da censura de livros e autores. O absurdo atinge tais extremos que uma canção de John Lenon que faz a apologia da paz foi proibida em numerosos estabelecimentos de ensino.

O Congresso cedeu já a pressões da Casa Branca e aprovou um pacote legislativo que fere direitos e garantias constitucionais, embora não tenha concedido ao Presidente tudo o que nesse terreno ele pedia.

Não é somente nos EUA que isso está ocorrendo. Em quase todos os países da União Européia a direita exige restrições às liberdades. Essas campanhas são acompanhadas de uma súbita vaga de anticomunismo. Todos quantos se opõem à escalada norte-americana e protestam contra a agressão ao povo do Afeganistão são apontados como aliados potenciais do terrorismo.

Nos EUA e nos seus aliados europeus, o discurso do poder adquire com freqüência matizes neofascistas. O medo provocado pela fórmula bushiana “os que não estão conosco estão contra nós” reflete-se particularmente na mídia. De semana para semana cresce a tendência para a autocensura em canais de televisão, rádios e jornais tidos por independentes.

É significativo que alguns partidos e organizações de esquerda, na Europa, hesitem em tomar a iniciativa de promover manifestações pela Paz, condenando a guerra imperial.

No final dos anos 80, a estrela entre os apologistas dos EUA foi Francis Fukuyama e sua proclamação do fim da história. Agora, os propagandistas pró-EUA e pró-capitalismo exaltam as teses de Samuel Huntington e seu conflito de civilizações para explicar a atual situação. Essas teorias apologéticas deixam em segundo plano a luta de classes e a luta dos povos por soberania. Antes se falava em classes perigosas; hoje, os propagandistas do imperialismo falam em nações fora-da-lei. As teses de Huntington não serviriam para legitimar essa propaganda?

Miguel Urbano Rodrigues – Submetidas à prova da vida, as teses de Samuel Huntington serão desmentidas pelo andar da história tal como aconteceu com o esforço de Fukuyama (a quem ele criticava então) para identificar no alastramento circunstancial do neoliberalismo a prova de que o capitalismo imperial estava vocacionado para se eternizar. A história continua e o “choque de civilizações” não passa de uma teoria reacionária, de base racista, forjada para negar a permanência da luta de classes e a ação criminosa do moderno imperialismo. Mas obviamente, os debates acadêmicos em torno das fantasias geopolíticas do professor Huntington não alteram minimamente o rumo da história e as lutas dos povos do Terceiro Mundo.

A gritaria oficial nos EUA sobre o pretenso perigo representado pelos chamados “rogue states”, “estados bandidos” ou “nações fora da lei”, e as campanhas da mídia para convencer os norte-americanos da necessidade de um escudo espacial contra terríveis ameaças vindas de pequenos e pobres países distantes não têm o poder de apagar a evidência: quem configura uma ameaça para a Paz e para a humanidade em geral é a política imperial dos EUA, a sua ambição de impor um domínio perpétuo e universal sobre o planeta.

As teses de Huntington foram agora retiradas da gaveta (o livro foi reeditado) na esperança de dar algum fundamento teórico, e supostamente científico, à agressão norte-americana contra o Afeganistão. Mas bombardear um povo e destruir o seu patrimônio cultural em nome das exigências do combate ao terrorismo é uma atitude criminosa, definidora da irracionalidade que assinala o funcionamento da engrenagem imperial.

Com o seu primarismo intelectual e cultural, o presidente George Bush encarregou-se de desmoralizar a estratégia adotada e desmascarar os fins reais da escalada bélica, ao definir como Cruzada a guerra por ele iniciada. Na memória dos povos muçulmanos essa palavra é inseparável de agressão genocida. Cabe recordar que os atos de barbárie então cometidos pelos cruzados na Síria e na Palestina atingiram tais proporções que o Papa sentiu a necessidade de os condenar numa bula especial, ao saber que os cavaleiros cristãos, após a tomada de Antióquia, assavam no espeto, em grandes churrascos, crianças árabes e turcas...

Milhões de muçulmanos manifestam hoje a sua solidariedade com o povo do Afeganistão, vítima de uma agressão bárbara. Essa atitude não define um conflito de civilizações.
Há quem pense que os ataques de 11 de setembro criam uma situação militar nova, compatível com a globalização, onde a guerra é desterritorializada e o inimigo pode estar em toda parte. Isso significa que seria legítima a violação da soberania dos países em busca de acusados de crimes, a critério dos estrategistas do Império?

Miguel Urbano Rodrigues – A monstruosidade dos atos terroristas do 11 de setembro permitiu aos EUA inverter uma situação que lhes era muito desfavorável. O país estava em recessão e sofria os efeitos de um preocupante isolamento internacional. A recusa de ratificar o Protocolo de Kyoto e o acordo sobre armas biológicas era uma fonte de atritos com os aliados europeus, a insistência nas “certificações” no combate ao narcotráfico bem como a pretensão de recolonizar a América Latina através do Alca geravam tensões crescentes. A execução do Plano Colômbia assumia contornos de intervenção militar. A retirada da Conferência de Durban e o apoio irrestrito a Israel criavam problemas em cadeia na África e no Oriente Médio.

Em poucos meses a administração Bush havia demonstrado um desprezo total pela independência e soberania dos povos do Terceiro Mundo. A Doutrina Lake, segundo a qual os EUA se reservam o direito de intervir militarmente onde, como e quando quiserem, de forma unilateral, emergia como um pilar da política exterior de Bush.

O 11 de setembro alterou radicalmente a situação existente. Vítimas de uma terrível agressão terrorista, os EUA apareceram como credores da solidariedade internacional. Receberam dos seus aliados mandato para punir o terrorismo e erradicá-lo do planeta. De vítimas passaram a vingadores. A engrenagem funcionou de tal maneira que a Doutrina Lake – ou seja a intervenção unilateral contra estados soberanos – surgiu como legítima aos olhos dos paises ricos.

Os norte-americanos e seus aliados confundem terrorismo, fundamentalismo islâmico e luta armada. É possível igualar o terrorismo com a resistência contra a ocupação estrangeira?

Miguel Urbano Rodrigues – A confusão citada é obviamente ilegítima. O discurso de Bush e dos secretários de Estado e da Defesa apresenta-a por vezes com matizes diferentes. Mas existe entre eles um denominador comum. Para o presidente e seus colaboradores mais próximos qualquer movimento libertador que recorra à luta armada (não apenas em países islâmicos) é, a partir de agora, terrorista e como tal deverá ser tratado.

Significativamente, o embaixador John Negroponte já anunciou na ONU que os EUA se reservam o direito de punir (leia-se bombardear) outros países. A própria mídia norte-americana interpretou essa ameaça como dirigida à Siria, à Libia, ao Sudão e, naturalmente, ao Iraque.
Para os ideólogos do neofascismo que se esboça, as forças de esquerda que em todo o mundo se batem contra o neoliberalismo e o imperialismo aparecem já como potencialmente terroristas. Os apelos à repressão acompanham as medidas de restrição das liberdades. Manifestações democráticas de protesto como as de Seattle, Quebec, Gênova etc, serão a partir de agora tratadas como “subversivas” e de tendência terrorista.

Quanto ao fundamentalismo religioso, é transparente que a direita norte-americana adotou há muito um comportamento fanático, que em momentos de crise influencia amplos setores sociais. O ressurgimento em força do anticomunismo na mídia é uma conseqüência desse fenômeno.

No período da luta contra os comunistas e a URSS, no Afeganistão, as milícias pró-norte-americanos eram apresentadas como “lutadores da liberdade”. O que levou Bin Laden e outros extremistas, treinados pela CIA, a voltar sua ação contra os EUA e o “Ocidente”?

Miguel Urbano Rodrigues – Reagan dedicava uma estima especial aos chefes fundamentalistas das Sete Organizações Sunitas, por ele definidas como heróis e combatentes da liberdade. Quanto a Bin Laden, que foi também acarinhado pela CIA (que preparou, depois, através do Paquistão, o assalto dos Talibãs ao poder), creio que se exagera muito a importância do seu papel nos acontecimentos. Aos EUA convém inventar um “responsável”, mesmo que ele não exista. No Afeganistão, um dos países mais atrasados do mundo (nunca houve ali ferrovias), quase não há computadores. Pergunto: como seria possível conceber e dirigir a partir dali uma operação terrorista com a complexidade logística do 11 de setembro? Os fatos já trazidos a público revelam que a maioria das pessoas envolvidas na preparação do atentado é de cidadãos norte-americanos, alguns nascidos nos EUA. A operação terrorista contra Manhattan e o Pentágono apresenta carimbo norte-americano. Não é segredo que os serviços de segurança e inteligência dos EUA tinham conhecimento de que operações terroristas ambiciosas estavam sendo preparadas. Entretanto, reagiram com uma estranha passividade.
Até agora, a administração Bush não tentou responder a algumas perguntas inquietantes. Uma delas é particularmente incômoda. Entre a destruição da segunda torre e o ataque ao Pentágono transcorreram 43 minutos. Por que motivo não foi interditado o espaço aéreo da capital federal? O sistema antimíssil de proteção não foi acionado e sobre Washington não apareceu um só avião de combate.

Supõe-se que a região do mar Cáspio e da Ásia Central poderá representar, no futuro, o mesmo papel do Golfo Pérsico na atualidade. A luta pelo petróleo e pelo gás não seria um dos principais motivos que levam os EUA a investir contra o Afeganistão?

Miguel Urbano Rodrigues – Existe uma abundante documentação oficial norte-americana sobre a política que visa a garantir o domínio dos EUA sobre o petróleo e o gás natural da Ásia Central ex-soviética. Brezinski define a Região como “o novo eixo geopolítico”. Em Março de 2000, eminentes acadêmicos russos revelaram na Conferência Internacional de Solidariedade à Iugoslávia, realizada em Belgrado, pormenores do projeto de desmembramento do Estado russo. Essa estratégia prevê o afastamento da Rússia do Cáucaso e da região caspiana na seqüência de conflitos que os EUA estimulariam (Chechênia, Daguestão, Calmúquia etc). O motivo principal para a escolha do Afeganistão como primeiro alvo da retaliação terá sido precisamente a situação estratégica do país como porta de acesso às fabulosas riquezas em petróleo, gás e diferentes minérios do Turcomenistão, do Casaquistão, do Uzbequistão e do Tajiquistão. A súbita virada de Putin – já definida por alguns observadores como a maior capitulação da história da Rússia – facilitou extraordinariamente o ambicioso projeto norte-americano. A presença de forças militares dos EUA em algumas dessas repúblicas aperta com tenacidade o cerco à Rússia. É muito improvável que Washington cumpra o compromisso de se retirar das repúblicas centro-asiáticas quando os atos de guerra contra o Afeganistão terminarem.

Os afegãos têm uma história longa de resistência a ocupações estrangeiras. Engels, em 1857, já se referia à sua capacidade de opor-se à ocupação britânica; os russos também tiveram uma experiência ruim ali. Os norte-americanos serão capazes de vencê-los?

Miguel Urbano Rodrigues – Quase todas as análises sobre o desenvolvimento da agressão contra o povo do Afeganistão são exercícios de futurologia pouco sérios. Ao longo dos séculos, desde os aquemênidas persas, as tribos afegãs lutaram com firmeza e coragem incomuns contra todos os invasores. Resistiram aos hunos heftalitas, aos árabes, aos turcos, aos mongóis, aos uzbeques, aos ingleses, ao império russo etc. Durante a primeira guerra anglo-afega, em 1838-40, um exército britânico inteiro, de 14 mil homens foi totalmente exterminado na retirada de Cabul. Os soviéticos não tiveram também uma experiência feliz. Os generais da rainha Vitória definiram os pachtunes como os melhores guerreiros do mundo.

É preciso conhecer um pouco a história daquelas tribos para se perceber o jogo sinuoso das alianças e as razões por que combatem. Nos anos 80, em épocas em que Cabul era diariamente bombardeada com mísseis oferecidos pela CIA aos mujaidins fundamentalistas das Organizações de Peshawar, conheci ali generais que mudaram de campo duas, três vezes, combatendo alternadamente contra a Revolução ou em sua defesa.

A mídia ocidental tem insistido em apresentar as forças da chamada Aliança do Norte como representartivas de uma oposição democrática ao fanatismo dos talibãs. Trata-se de uma fantasia. A Aliança é hoje o que resta das antigas Sete Organizações Sunitas, cujas tropas foram armadas, treinadas e financiadas pelos EUA, antes que Washington transferisse o seu apoio para os talibãs do mullah Muhamad Omar. São todos frangos da mesma ninhada. Ao atravessar a Cordilheira em 1986 vi mulheres com os peitos mutilados pelas hordas que hoje integram a Aliança do Norte.

Que não haja ilusões.Os grupos fundamentalistas afegãos são olhados pela Casa Branca alternadamente como aliados e democratas ou inimigos e terroristas. Depende da circunstância.
Mas o presidente Bush age com imprudência ao entoar antecipadamente cânticos de louvor aos soldados da sua Cruzada afegã. Os antecedentes históricos não justificam tamanho entusiasmo. Engels extraiu lições úteis da primeira guerra anglo-afegã. Foram esquecidas pelos generais do Pentágono. Em Washington saudaram agora com foguetes o prólogo da agressão ao povo do Afeganistão. Não é impossível que o desfecho seja de pesadelo.

Havia uma certa expectativa de a Europa buscar uma diferenciação dos interesses estratégicos dos EUA, tendo sido divulgado o interesse europeu em constituir uma força militar própria, distinta da OTAN. Com a atual ofensiva belicista norte-americana há um constrangimento nessa expectativa européia?

Miguel Urbano Rodrigues – Um relatório secreto do Pentágono de março de 1992 assinala que os EUA, para manter o seu domínio econômico e político permanente e perpétuo sobre o mundo, não podem permitir a emergência de qualquer poder militar de nível comparável ao seu. Nesse documento afirma-se que a presença das tropas norte-americanas na Europa deve ser definitiva e que seria contrária aos interesses dos EUA a formação de um exército europeu autônomo.

Transcorrida quase uma década, Washington foi obrigado a ceder e, sob pressão da França e da Alemanha, teve de aceitar como fato consumado aquilo que é já o embrião do futuro exército europeu. As relações que essa força manterá com a OTAN nunca ficaram claras. Recentemente declarações sobre o assunto do chefe do Estado Maior do Exército da França foram mal recebidas no Pentágono e no Quartel General da OTAN. Segundo o chefe militar francês o futuro Exército Europeu terá autonomia total para atuar em qualquer teatro de operações sem depender da OTAN. Tanto o secretário da Defesa dos EUA, Rumsfeld, como Lord Robeson, secretário geral da OTAN apressaram-se a criticá-lo, definindo suas palavras como “inadequadas”. O incidente chamou a atenção para o crescente antagonismo entre os interesses estratégicos da Europa e dos EUA. É transparente embora não seja público.

Mesmo os governantes mais conservadores da União Européia estão conscientes de que não há impérios perpétuos. O norte-americano terá o destino de quantos aspiraram ao domínio mundial, de Roma a Hitler.

A mídia repete insistentemente que o Afeganistão é um país muito atrasado, uma terra de gente bárbara. Essas opiniões traduzem a realidade que ali encontrou?

Miguel Urbano Rodrigues – Os gregos, que inventaram a palavra, definiam como bárbaros todos os estrangeiros. A mídia esconde uma realidade incômoda. O território do Afeganistão é um dos mais fabulosos museus arqueológicos da humanidade. Talvez não exista outro país onde, soterradas, existam tantas e tão belas ruínas de antigas civilizações.
Algumas tiveram por berço o atual território do Afeganistão; outras foram implantadas por povos vindos do ocidente ou do oriente.

Citarei apenas dois exemplos pouco conhecidos.
A islamização da Índia, nos séculos XI e XII, não foi empreendida pelos árabes, mas por duas dinastias de raiz afegã: a dos Gahznividas (turcos) e a dos Ghoridas (iranianos). Gahzni foi durante dois séculos uma das mais civilizadas cidades do mundo. Aquele sultanato foi o berço de alguns dos mais notáveis escritores, cientistas e artistas do Islã. Entre eles Firdusi, poeta genial e um dos criadores do persa moderno; Al Biruni, humanista, historiador, filósofo, matemático de prestígio universal; e Sanaí, o poeta místico cuja obra a crítica coloca no nível da de Dante Alighieri.

Foi das cidades greco-bactrianas do Nordeste afegão, por onde hoje andam os bandos da Aliança do Norte, que saíram os escultores que no início da nossa Era, no espaço do Império Kuchano, criaram a chamada Arte de Gandhara que fundiu o rigor formal e a perfeição técnica dos antigos gregos com a espitualidade budista.

Sob toneladas de entulho o subsolo afegão encerra-se ainda um patrimônio de valor incalculável. Para os estrategistas do Pentágono esses tesouros artísticos nada significam.
Segundo a CNN, Bagram, um campo arqueológico Kuchano mundialmente famoso, foi bombardeado. Parece que havia por ali um quartel... Uma chuva de bombas caiu sobre as ruínas das stupas de Jalalabad, monumentos funerários budistas únicos no mundo.
Penso que o qualificativo de moderno bárbaro se ajusta bem ao presidente George W. Bush.

EDIÇÃO 63, NOV/DEZ/JAN, 2001-2002, PÁGINAS 15, 16, 17, 18, 19, 20