Centro de Documentação e Memória (CDM)
Coleção Princípios - Oscar Niemeyer

Gramsci e a Escrita da História

Lincoln Secco* Publicado em 01.12.2007

Gramsci utilizou a literatura como documento histórico. Mesmo no cárcere, isolado da luta política, contrubuiu com a teoria marxista, analisando a história a partir dos elementos que lhe eram possíveis

Nenhum teórico marxista estabeleceu um diálogo mais fecundo da modernidade com a tradição ocidental antiga e medieval do que Antonio Gramsci. O objetivo destes apontamentos é tão somente tecer algumas reflexões rápidas sobre a relação de Gramsci com a História (e a tradição) e sobre as mudanças que se opera em sua “escrita” na sua fase pré-carcerária e na fase do cárcere. Cabe notar que antes de ser preso em 1926, ele se preocupou mais com o pensamento idealista italiano, escreveu artigos rápidos sobre o cotidiano em jornais socialistas (Avanti, Il Grido del Popolo) e fundou algumas publicações (como La Città Futura, L'Ordine Nuovo e L'Unità); depois, já aprisionado pelos fascistas, escreveu de uma forma muito diferente os Cadernos do Cárcere. Será aqui dada maior atenção à segunda “fase” e, nesta, a um exemplo de crítica literária dotada de muitas conexões com a História e na qual Gramsci manteve seu engajamento através de uma leitura política do “Canto X” do Inferno de Dante Alighieri sem perder o rigor do crítico literário.

Antonio Gramsci não era um historiador, no sentido acadêmico do termo, e nem mesmo um cientista político ou crítico literário. Estudou Lettere (voltado mais para a linguística) em Torino e abandonou o curso em favor de uma atividade jornalística e militante. Sua escrita tem todas as qualidades e limitações de suas atividades.

Antes de sua prisão em 1926, Gramsci escreveu sempre textos circunstanciais. Estampava seus artigos apenas em jornais. No Cárcere sua escrita sofreu uma alteração fundamental. Ele escrevia Für Ewig (para a eternidade) como dizia. Desde a juventude ele se viu na condição de comentarista de eventos históricos e, mais tarde, como analista de processos de longa duração (ou orgânicos, como ele preferia chamá-los). Mais ainda: sob formas inusitadas, refletindo sobre a história ao analisar a literatura.

Nas duas etapas, entretanto, ele manteve sua fidelidade à história e à revolução. Em que sentido? Ele era historiador do presente e não desejava fazer como aqueles que “têm a cabeça voltada para trás como os condenados dantescos”, conforme escreveu. Assim, sua obra está articulada a partir do presente. Mas de um presente in flux. Um presente como história. Exatamente a História é o ponto de articulação metodológico que serve como contextualização dos conceitos e como crítica da filosofia.

Gramsci afirmava a identidade entre História e política. Da identidade entre História e Política ele passou à identidade entre História e filosofia através da qual pôde questionar Benedetto Croce como filósofo da História; afinal este deveria ter feito o contrário, uma História da Filosofia. Gramsci viu em Croce um anacronismo: este partiu do presente para justificá-lo, por isso sua História da Europa tem uma periodização que oculta as rupturas revolucionárias. Faltava-lhe o historicismo que havia em Lênin, o qual era capaz de ver o marxismo como análise concreta da situação concreta. Educado na tradição idealista de Croce, Gramsci progressivamente supera essa formação através da leitura de Lênin. Também irá se contrapor ao marxismo italiano dominante (evolucionista) através de Lênin, entendendo o marxismo como um historicismo. Para Gramsci, o historicismo (como o historismo de Leopold Von Ranke) é a afirmação da singularidade dos fatos, alheia a qualquer filosofia da história . Assim, ele reconhece implicitamente a existência de um método histórico que é aquele capaz de abordar o desenvolvimento das sociedades humanas ao longo do tempo .

Numa passagem dos Cadernos do Cárcere Gramsci se pergunta: “Como estudar História?” . Escolhendo (construindo) os fatos mais significativos e não aplicando leis. Mas nos momentos em que os fatos nascem, como saber se são os mais importantes? Ele tenta responder: numa outra passagem dos Cadernos em que fala acerca da autobiografia: quando surgem fatos novos que aparentam mudar o curso da história, os historiadores costumam fazer perguntas vãs porque lhes falta a documentação de como se “preparou a mudança molecularmente, até o ponto em que explode” . Diz ele: “Ora, o movimento molecular é o mais perigoso” . Num certo momento o quantitativo se torna qualitativo. Veja-se que os fatos explosivos são os resultados de um acúmulo de mudanças moleculares, as mais perigosas...

Mas no momento em que escrevia seus artigos de jornal ele não tinha plena consciência de que os fatos que narrava eram orgânicos. Ele faz uma aposta, ou melhor, uma previsão e nela se engaja politicamente. Ele não dá a resposta de um historiador, mas a de um militante e, por isso, não pode ter certeza científica, apenas ideológica. Ele sabe que os fatos fortuitos só assumem importância numa totalidade quando servem para reforçar ou minar uma dada estrutura, mas tomar consciência da necessidade histórica só é possível post festum (ou seja, depois do acontecido). Pois os homens e as mulheres fazem história em grande medida sem o saber e o fazem contra o fatalismo do marxismo da Social-Democracia da II Internacional. Isso evidentemente revela um gap intransponível entre o saber do teórico marxista (o qual é baseado na História, a “única ciência” que Marx e Engels reconheciam em

A Ideologia Alemã) e a prática revolucionária. Um gap não no sentido de uma abertura ou fenda através da qual se pode vislumbrar o “outro lado”, mas como um espaço vazio, um hiato. Sabe-se só depois, não antes. Eis a contradição insanável.

Era assim que Gramsci pensava nos seus escritos de juventude ao avaliar o significado histórico da Revolução Russa, a revolução feita “contra O Capital de Marx”, ou seja, contra as previsões deterministas dos que esperavam o socialismo como inevitável produto da evolução capitalista: “Os bolchevistas desmentem Karl Marx ao afirmarem, com o testemunho da ação desenvolvida e das conquistas obtidas, que os cânones do materialismo histórico não são tão esquemáticos” .

Os homens e as mulheres não conhecem inteiramente quando agem, o que dá uma vantagem ao historiador. Ao contrário do que pensamos habitualmente o historiador sabe sempre mais e não menos do que os que viveram o passado. São saberes distintos, é verdade. O materialismo histórico é uma explicação a posteriori e não existe como causa a priori. Pois se soubéssemos antes, o seu estatuto categorial seria outro: ele funcionaria como causalidade e não como explicação. Tomamos consciência parcial dos fatos, previmos princípios gerais, mas não os fatos em si mesmos. Essa consciência é ideológica, participante e interessada, mas é também o terreno em que se toma consciência das necessidades da história. Necessidades criadas pelos próprios homens e não forças imanentes e mecânicas. Necessidades que podem deixar de ser necessárias, que podem não se realizar.

A História no Cárcere

Nos cerca de dez anos em que esteve no cárcere fascista (1926-1937), Antonio Gramsci escreveu os Cadernos do Cárcere. Sob a rigorosa censura carcerária ele não podia obter muitas informações acerca dos fatos diários. Desde suas primeiras missivas, ele se preocupou muito com o fornecimento de livros e periódicos. Era sua obsessão. Na prisão de Ustica (9/12/26) , quando lia O homem que queria ser rei, de Kipling, pediu com urgência os dicionários e gramáticas para seus estudos de alemão e os livros sobre o Risorgimento e a unidade nacional.

No cárcere sua escritura sofreu uma alteração fundamental. Ele escrevia Für Ewig (para a eternidade) como dizia. Escreveu reflexões mais demoradas em 33 cadernos. Trabalhava neles muitas vezes ao mesmo tempo, o que em alguns casos impede que saibamos a ordem cronológica dos textos. Reescrevia passagens inteiras às vezes mudando uma ou outra palavra. Usava frases elípticas e mudava nomes de personagens do movimento socialista para iludir a censura carcerária. Assim, Stalin era Giuseppe Bessarione e Trotsky Bronstein, por exemplo. Fazia comentários nebulosos sobre as relações do Vaticano com as igrejas nacionais parecendo falar das relações entre a Internacional Comunista e os partidos comunistas nacionais, entre outras coisas.

A prisão de Gramsci em fins de 1926 o colocou numa situação absolutamente nova, portanto. Desaparece a estrutura dialógica dos textos e a montagem de escasso fôlego para atingir o leitor de jornal. Desaparece o tema diário onde o autor selecionava o acontecimento do dia e fazia dele a janela para abrir as perspectivas da história, da política e da luta revolucionária. Agora, ele terá de escrever em 33 cadernos onde anotará tanto as leituras feitas quanto as idéias que brotam no cárcere da reflexão aprofundada e sem acesso aos acontecimentos diários. Mais ainda, sem a crítica do leitor ou dos adversários (diálogo) sua escrita assume uma forma de fragmentos aparentemente desconexos e cuja unidade precisa ser restabelecida pelo possível futuro leitor da cidade nova, liberta das amarras do cárcere maior que é o capitalismo.

Sem poder ler por algum tempo, exceto os livros da biblioteca da prisão, ele teve de se esforçar para fazer perguntas novas a uma literatura que era, em grande medida, romances franceses de capa e espada. E o fez! As fontes e o conteúdo determinaram que usasse não a narrativa histórica para “fazer história”. Desprovido de fontes “tradicionais” para documentar a história e sem poder fazer apontamentos do que lia (leggere senza scrivere), pois se proibia que ele tivesse lápis ou a pena no início, Gramsci fez não só a política, mas a história através da crítica da literatura. Por quê?

A Crítica “Literária” do Fascismo

Uma recente biografia de Gramsci mostrou como o diálogo entre Gramsci e o dirigente da Internacional Comunista, Palmiro Togliatti, através de Piero Sraffa (economista amigo de Gramsci), se dava por meio de assuntos literários. Aparentemente Gramsci tratava de literatura. Aparentemente porque ele tratava de fato de literatura, mas sem deixar de fazer política. Não que a visse como arma política, afinal para ele a arte era política enquanto arte e não enquanto arte política.

A literatura popular na Itália era francesa. Ou seja, o popular estava separado do nacional. Há qualquer coisa de estranho à primeira leitura. Ele não está interessado nos romances populares como acadêmico, evidentemente. Nem só porque apenas isso lhe restava para ler nos primeiros tempos de cárcere. Quem recupera o nacional na Itália de 1926? O fascismo. Gramsci irá desmontar peça por peça o ideário fascista. Mas há algo mais: como ele observa que obras estrangeiras são populares, isso também quer dizer que um partido internacional (o comunista) pode exercer uma tarefa nacional?

Veja-se que da crítica literária surge uma narrativa da história do nacional – popular na Itália. A narrativa de mudanças e permanências estruturais e uma crítica da apropriação indevida da história no presente, como aquela que ele fizera a Croce. Porém, o mais importante é que a literatura é usada também como documento da história sem que se perdessem as especificidades da análise literária. É isto que ele vai fazer ao ler o “Canto X” do Inferno de Dante.

A História no Inferno

Gramsci era muito ligado ao professor Umberto Cosmo, um estudioso de Dante e da literatura italiana. Cosmo tinha sido um professor de Liceu que acabou substituindo por algum tempo o professor Arturo Graf na cadeira de Literatura Italiana na Universidade de Torino, segundo informações que encontramos na correspondência gramsciana. Cosmo e Gramsci eram muito unidos por um afeto mútuo. Em novembro de 1920 Gramsci escrevera um violento artigo contra Cosmo. Em 1922 Gramsci foi visitá-lo na embaixada italiana de Berlim e, ao ser anunciado, o viu descer as escadas em desabalada carreira e abraçá-lo entre lágrimas. Essas recordações foram registradas por Gramsci em mais de uma carta quando ele recebeu de Piero Sraffa, pelo correio, o livro Vida de Dante do professor Umberto Cosmo .

Cosmo propusera-se a publicar textos de Gramsci sobre Maquiavel num livro, mas Gramsci sempre se recusou a escrever um livro. Preferia artigos de combate. Já na prisão tudo mudou, como vimos, e ele se voltou para o estudo do “Canto X” do Inferno de Dante e se recordou emocionado de Umberto Cosmo. Sua história de vida (passado recente e presente no cárcere) se cruzava com a história que ele queria narrar: neste caso dizendo como ele a deveria narrar. Portanto, voltou-se para considerações teóricas sobre a História. Por quais razões através do “Canto X”? Porque tinha uma predileção por tais estudos demonstrada anteriormente, é certo. Também porque não tinha toda liberdade para tratar de assuntos políticos nos Cadernos, como vimos por algo mais, como veremos.Gramsci se propõe a analisar o “Canto X” de Dante onde aparecem Farinata e Cavalcante . Farinata é sogro do poeta Guido Cavalcante (1255-1300) , amigo de Dante e representante do dolce stil nuovo. Cavalcante é o pai deste.

De início é preciso lembrar que, como certos historiadores, os condenados do inferno só enxergam o passado e, como certos utopistas, o futuro. O que eles não vêem é o presente. Assim, Farinata e Cavalcante vêem o passado e o futuro, mas nada sabem do agora. Dante os encontra em posições diferentes: Cavalcante, cabisbaixo, Farinata sobranceiro.

Cavalcante pergunta pelo filho. O que Dante pode responder? Essa a questão de Gramsci. Dante fora amigo de Guido e precisa mostrar que Guido já está morto. Não no passado, mas no presente. Cavalcante olha ao redor de Dante (“D'intorno mi guardo”) porque vê que Dante é uma alma vivente e só poderia ter ali chegado nesta condição por seu engenho e arte, coisas que não faltariam a Guido. O que Dante vai mostrar é que ele veio não por seu engenho (“Da me stesso non vegno”), mas por Virgílio que o conduz.

Ele se dirige àquela que talvez Guido desprezou: “forse cui Guido vostro ebbe a disdegno”. Quem é aquela? Os comentadores de Dante, ao longo dos séculos, tiveram várias respostas. O verso 62 do “Canto X” do Inferno se refere a Nossa Senhora, ao paraíso ou a Beatriz. Num caso Guido teria rejeitado a religião, em outro a língua latina (escrevia em vulgar). Ou ainda teria desprezado Virgílio (símbolo da idéia imperial), pois Guido era guelfo (partidário do papado). Ou ainda teria tido desprezo pelos poetas, pois era dado também aos estudos filosóficos. De toda maneira havia um dissídio entre Dante e Guido.

A pergunta de Cavalcante pelo filho tem uma resposta indiferente com um verbo no passado: “ebbe”. O pai faz, desesperado, três perguntas:
“– Come discesti: ‘egli ebbe'?
- Non vive egli ancora?
- Non fiere gli occhi suoi lo dolce lome?”

Como Dante poderia ter dito o verbo no passado (“ebbe” )? Isso quer dizer que Guido não vive mais e que a luz não atinge os seus olhos? Dante hesita em responder e Cavalcante cai subitamente.
Gramsci observa que o traço estrutural, a alteração do verbo, não é só estrutura, é também poesia: a própria estrutura é poesia em si mesma. Isso poderia lhe render a acusação de fazer a crítica do não expresso, do que nunca se tornou poesia. Ora, Gramsci permite-se figurar o presente como estrutura que contém o ser e o devir e que envolve o passado como forma (“ebbe”). A crítica é àqueles que, vendo o passado desinteressadamente, ignoram o presente e àqueles que, vendo o futuro somente, ignoram igualmente o presente. O presente só pode ser visto como história que se desenrola numa estrutura dada (o passado que continua e que sofre rupturas como a morte de Guido). Na duração Guido foi, é, e será, ainda que nunca na mesma maneira. Sobrevive na sua obra, numa forma “historicista”.

Que papel tem a estrutura? O papel de passado que resiste ao tempo. Conhecer o passado desinteressadamente não basta. Projetar o futuro como os utópicos, não basta. Agir no presente sem atenção à estrutura também não basta. A História deve captar a gênese e a estrutura combinadas. A narrativa da mudança de estrutura é em si mesma “poética”, ou seja, historiográfica .

A Fidelidade ao Projeto Comunista

Mas há uma razão outra para passar a política e a história com as vestes da literatura. Porque não se tratava para Gramsci de passá-las através de qualquer literatura neste caso. Precisamos, agora, ir além da relação com Umberto Cosmo e com os estudos da universidade, meras reminiscências ainda que pessoalmente significativas, para explicar a escolha de Dante, do Inferno e do “Canto X”. É até provável que a explicação antes escolhida seja insuficiente. O que os condenados dantescos sabem? Pergunta crucial. Como vimos anteriormente, eles conhecem o passado como o historiador desinteressado e sabem o futuro (eles estão no futuro!). O que os condenados dantescos não sabem? O presente! Dante o sabe. Sua narrativa já tem um fim. É teleológica. Dante sabe o passado, o presente e o futuro.

Mas a indagação vale para Gramsci: o que ele sabe? O passado vivido e estudado certamente. E o futuro, pois ele entendia o marxismo como uma previsão . A história não é resultado nem só do mar das individualidades empíricas (expressão de Hegel) e nem de infalíveis leis econômicas. Marxismo é o socialismo projetado no futuro. Sua previsão é ideológica e científica. Mas não deixa de ser ideológica, portanto, indeterminada em alguma medida. A previsão só existe se as pessoas se engajarem na realização dela. Portanto, Gramsci sabe o passado e o futuro, participante que é de um movimento comunista internacional. O que ele não sabe? Como os condenados dantescos ele não conhece o presente. Preso no cárcere, ele não tem acesso às informações do dia a dia que lhe permitiriam combater com a narrativa da história que acontece cotidianamente. Desprovido do diálogo com adversários e aliados políticos ele foi colocado fora da luta imediata. Como Cavalcante ele não sabe se Guido é morto ou vivo.

Se isso for verdade, estamos diante de uma fina escritura da história não só como biografia, mas também como autobiografia que por vias inéditas resolve a aporia dos condenados dantescos. Não se trata de autobiografia no sentido convencional. Neste sentido, ele já fazia autobiografia com as reminiscências sobre Umberto Cosmo e a reconstituição do contexto histórico imediato de sua leitura de Dante. Mas no sentido que une origem e permanências (o genético e o estrutural) estamos lidando com uma autobiografia das estruturas de vida nas quais o indivíduo Gramsci está inserido não como indivíduo singular, mas como indivíduo concreto que sintetiza muitas determinações e que pode assim ler não só o que é aparente (sua condição de condenado) mas o que é estrutura (sua condição de símbolo “concreto” de um movimento objetivo da história).

Uomo sconfitto (homem derrotado) como o chamou sua biógrafa Laurana Lajolo, Gramsci toma consciência do presente como ausência. Mas ele toma essa consciência escrevendo para a eternidade e documentando também a sua condição de condenado. Cavalcante se desespera e cai enquanto Dante prossegue a viagem. Gramsci sabia que o partidário do império universal Dante prosseguiria a viagem assim como o partido internacional (o novo império) também prosseguiria, mas sem ele . Dessa forma sua derrota se dilui numa batalha universal, torna-se um capítulo, certamente valioso, mas apenas um capítulo. Ela não acaba ali. Com ele. E prossegue sem ele.

Sem ele? No sentido historicista, como Gramsci gostava de dizer, a luta prossegue com ele. Com a sua obra. Ao contrário dos condenados dantescos, Gramsci percebeu os fatos orgânicos, as estruturas que resistem ao tempo. Nelas o presente é também história. Mesmo afastado dos fatos do dia a dia ele podia vislumbrá-los com maior capacidade de reflexão, o que antes, em verdade, lhe faltava. A história e a autobiografia são assim mais do que narrativas do condenado: são seu instrumento de luta.

Conhecedor da estrutura em que as possibilidades da história se impõem ou não ele pôde, finalmente, como Dante no final de um dos Cantos do Inferno, cair como cai um corpo morto e manter vivente o espírito (a obra escrita) que, num sentido histórico, pode visitar o inferno. Mas ao contrário de uma leitura religiosa de Dante, em Gramsci o Paraíso (futuro) não pode ser previsto e antecipado (senão em linhas gerais). Ele é uma promessa imersa no reino da indeterminação. Sua primeira construção pode degenerar em tragédia e recomeço. Afinal, o drama do materialismo histórico (o hiato entre conhecer e agir) permaneceu a olhos vistos no século XX.

Lincoln Secco é Professor do Departamento de História da USP

EDIÇÃO 93, DEZ/JAN, 2007-2008, PÁGINAS 16, 17, 18, 19, 20