Entrevistas

Flávio Dino: “o que eu busco é a melhoria do ambiente de diálogo”

Publicado em 22.01.2020

“O que eu busco é a melhoria do ambiente de diálogo. Quanto mais você melhora o ambiente de diálogo, distensiona e diminui a intolerância, você cria relações de confiança, você cria possibilidades de em segundos turnos haver confiança mais ampla para derrotar um mal maior”, defendeu Dino.

Flávio Dino em Entrevista ao Estadão

O governador Flávio Dino (PCdoB) concedeu entrevista exclusiva ao site BRPolítico, do Estadão, nesta segunda-feira (20). Ao jornalista Gustavo Zucchi, Dino destacou seu trabalho para construir alianças no enfrentamento ao grupo político de Bolsonaro.

“Se nós olharmos a história brasileira, sempre vamos encontrar que avanços democráticos e sociais decorreram de alianças, de frentes políticas, de articulações envolvendo setores com vinculações diferentes”, destacou o governador, que lembrou o momento do enfrentamento da ditadura militar, quando as campanhas pelas Diretas e pela Anistia, bem como a posterior eleição, somaram amplos setores políticos e sociais.

“O que eu busco é a melhoria do ambiente de diálogo. Quanto mais você melhora o ambiente de diálogo, distensiona e diminui a intolerância, você cria relações de confiança, você cria possibilidades de em segundos turnos haver confiança mais ampla para derrotar um mal maior”, defendeu Dino, mencionando não só a eleição de 2022, mas o pleito para as prefeituras e Câmaras ainda neste ano.

Leia  a íntegra da reportagem: 

Flávio Dino quer repetir união histórica de 1989 contra Bolsonaro

Por Gustavo Zucchi

Flávio Dino já pensa em como vencer Jair Bolsonaro nas eleições de 2022. O atual governador do Maranhão tem capitaneado uma iniciativa vista com ressalvas por uma esquerda mais radical: conversar com os mais diversos políticos de campos ideológicos mais à direita. Otimista, Dino crê que consegue o improvável: unir campos diversos contra Jair Bolsonaro ao menos em segundos turnos nas eleições municipais e na nacional em 2022. Nas últimas semanas, Dino se encontrou com Luciano Huck, possível candidato à Presidência pelo Cidadania, mas não foi o único. O governador tem boa convivência com nomes como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia.

O governador crê até mesmo que o PT, que manteve Fernando Haddad como cabeça de chapa em 2018 e atrapalhou os planos de Ciro Gomes, poderia até mesmo abrir mão do “exclusivismo”, mesmo tendo o protagonismo por ser o maior partido de esquerda. “Vimos, por exemplo, na Argentina, a própria Cristina Kirchner fez esse movimento e resultou na vitória do campo político que ela lidera”, comparou. No sonho de Dino, a ideia seria repetir o palanque do segundo turno de 1989, que contou com Mário Covas, Ulysses Guimarães e Leonel Brizola defendendo a eleição de Lula contra Fernando Collor. Confira entrevista exclusiva concedida pelo governador ao BRP:

BRP – O senhor tem conversado com políticos de diversas vertentes ideológicas. Incluindo o possível candidato à Presidência, Luciano Huck. É uma estratégia para tentar derrotar o presidente Jair Bolsonaro em 2022?
Flávio Dino – Se nós olharmos a história brasileira, sempre vamos encontrar que avanços democráticos e sociais decorreram de alianças, de frentes políticas, de articulações envolvendo setores com vinculações diferentes. Ou seja, é preciso sempre, consultando a história, entender que nós só vamos retomar um ciclo de desenvolvimento com justiça social no Brasil se o campo progressista, democrático, popular, da esquerda, ver condições de reeditar, a exemplo desses outros momentos, essas articulações mais amplas. Nesse sentido que eu tenho, no âmbito do fórum de governadores, na relação com o Congresso, assim como com outras personalidades e lideranças políticas, procurado concretizar na prá cá essa visão teórica acerca da realidade brasileira.

Essas conversas indicam que há então a possibilidade de haver alianças nas eleições e em um futuro governo, na sua opinião?
Nós temos algumas experiências internacionais que ensinam bastante. Recentemente nós vemos a confirmação da aliança política na Espanha, que levou à formação do novo governo e que há a participação de setores bastante diferentes. Do mesmo modo, nós temos já algum tempo a experiência portuguesa, que tem se revelado exitosa, na medida que são vários partidos da esquerda e mais ao centro, de perfil mais social-democrata, mais liberal que se juntam. E o Maranhão é um caso que mostra que isso é plenamente possível entre tantos outros exemplos. Nós, desde 2014, fizemos uma aliança bastante ampla para vencer as eleições de um grupo político bastante longevo no poder liderado pelo ex-senador José Sarney. E esse caminho se revelou abastado, na medida inclusive em que nós conseguimos ampliá-la em 2018, de 9 para 16 partidos. E o que é significativo sublinhar: essa aliança se mantém no governo. Ou seja, não foi algo apenas eleitoral. Então temos secretários filiados ao DEM, secretários filiados ao PT e convivemos no mesmo governo em torno da mesma coordenação política e do mesmo programa de governo.

Não parece improvável vermos no mesmo palanque, ao menos em uma eleição nacional, nomes tão diferentes ideologicamente como Flávio Dino, Luciano Huck, Rodrigo Maia, Fernando Henrique Cardoso e até mesmo políticos do PT?
Há dois pontos fundamentais a destacar. O primeiro deles é que essas alianças mais amplas e plurais não são inéditas na vida brasileira. Se nós lembrarmos da luta contra a ditadura, depois as campanhas pelas Diretas (Já), as campanhas pela anistia, o processo eleitoral que se seguiu, você tinha alianças entre parlamentares e lideranças de vários par dos políticos. Eu cito como exemplo o palanque histórico da eleição de 1989 em torno da candidatura do ex-presidente Lula, em que estavam presentes o Mário Covas que era do PSDB, Ulysses Guimarães (MDB) e Leonel Brizola (PDT). Ou seja, havia pluralidade. O segundo ponto a mencionar é que nós teremos em um grande número de cidades, no caso das eleições municipais, e também no caso da eleição nacional de 2022, eleições em dois turnos. Então o que eu busco é a melhoria do ambiente de diálogo. Quanto mais você melhora o ambiente de diálogo, distensiona e diminui a intolerância, você cria relações de confiança, você cria possibilidades de em segundos turnos haver confiança mais ampla para derrotar um mal maior.

Como fica o PT nesta história? Acha que seria positivo o partido abrir mão da cabeça de chapa em prol de um candidato com menor rejeição, inclusive de setores de centro?
O PT é o principal partido da esquerda brasileira, assim como o ex-presidente Lula é a maior liderança do campo popular. E tem inexoravelmente um protagonismo em relação aos processos eleitorais. Agora, naturalmente, protagonista não significa exclusivismo. Essa nuance que creio que o próprio PT compreende bem. Tanto que, citando novamente o caso do Maranhão, eu não sou filiado ao PT e agora em 2018 tive o apoio do PT. Posso citar tantos outros exemplos. Não creio que haja obstáculos para que o PT abra mão da cabeça de chapa em eventual eleição, em uma chapa mais ampla. Vimos, por exemplo, na Argentina, a própria Cristina Kirchner fez esse movimento e que resultou na vitória do campo político que ela lidera, mesmo ela sendo a pessoa mais representativa. Isso vai se dar mais adiante. Em 2022, para ver quem agrega mais, quem tiver mais condições, acho que há um clima de bastante cordialidade que permitirá esse diálogo.

E Ciro Gomes? Ele “rompeu” com o partido após as eleições de 2018, quando justamente o PT não quis abrir mão da cabeça de chapa.
Acho que o Ciro viverá em 2020, nessa eleição municipal, um processo de reaproximação do nosso campo político. É o que eu desejo e esse será o meu empenho. É normal que o PDT e qualquer outro partido político tenham uma política de alianças mais flexível, uma vez que não dá para enquadrar todos municípios em um modelo rígido, mas o certo é que muito seguramente o PDT fará aliados a partir da esquerda em muitas cidades. Então, inevitavelmente, haverá compartilhamento de palanques de campanhas por parte do Ciro em relação a outros partidos do campo da esquerda. E ele pertence a esse campo. Então há uma distensão, um distanciamento nesse período que sucedeu a eleição de 2018, mas acho que não é algo imutável.

O PCdoB, assim como o PT, tem tentado abrir diálogo com o segmento evangélico. Acha que o setor progressista falhou em dialogar com os religiosos nos últimos anos?
Acho que não houve uma adequada priorização desse diálogo e é algo que deve ser corrigido. Esse diálogo já foi mais intenso em outros momentos da vida brasileira. Lembremos que o projeto Brasil Nunca Mais, liderado por Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, tinha participação de lideranças religiosas de várias igrejas evangélicas. Então em vários instantes, várias lutas sociais do povo, da população, em defesa das liberdades democráticas, tínhamos pastores, rabinos, padres. Lideranças de religiões afro-brasileiras, todos participando. Esses alertas que o ex-presidente Lula (em sinal de aproximação aos evangélicos) tem feito visam exatamente corrigir um parcial de distanciamento que infelizmente aconteceu.

O senhor se vê disputando a Presidência em 2022?
Se Deus quiser estarei finalizando o governo do Estado deixando a população do Maranhão com políticas sociais capazes de termos um retrato melhor do que quando eu assumi. E como decorrência dessa meta, espero estar nas urnas concorrendo a algum mandato eleito. De que natureza, ainda é um processo bem distante.